Olhos d´água


A coroa de rei te cai bem

És majestade dos teus argumentos

Monarca dos teus sentimentos

E reinas mesmo em meu coração

A casa lisa, sem falhas, só engana

Dá impressão de fruta simples, bem resolvida

Mas quem corta tal carapaça vê obra mais complicada

Colônia de formiga, favo de mel

Vários vocês em você mesmo

Cada um guardado à sua maneira

Em cápsula

Ou cela?

Por via das dúvidas, a polpa envolve

Gelatina doce, linda e transparente

Que distrai e sacia, antes que cheguem às pequeninas verdades

Quebra-queixo, quebra dentes

Você é fruta-girassol

Fruta flor

Você é de época, mas te aceito mesmo assim

(Dá sorte no fim do ano)

Meu Romeu

Minha Romã

 

                                                                                       Para Marcos



Escrito por Ana às 14h06
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Abro a porteira. A madeira branca e as dobradiças antigas se unem em coro. Gosto do barulhinho que anuncia tempestades, invernos e verões, visitantes e visitados. E prepara os olhos e o espírito para o verde das coxilhas, os campos de margaridas, a brisa suave da tarde.

A proposta, o dinheiro, a angústia, tudo fica para trás no primeiro vôo do sabiá, que me vem cochichar que todos estavam há muito à minha espera. Os cavalos aparecem por detrás do bosque, os cachorros vêm me receber com festinhas, até a gata amarela que repousava sobre o telhado da casa branca de porta azul se espreguiça. Sinto as boas vindas no giro dos girassóis, o capim cidreira manda seu perfume só pra mim.

Tem gente que pensa que batizei a fazenda assim por causa da frescura de suas águas e grotões. Mas, naquele momento, aqueles olhos eram os meus.

Voltei para o meu lugar.



Escrito por Ana às 19h01
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Aquarela

 

A beleza da tarde, os gatos estirados por entre os vasos de flores. A luz do sol poente em cada canto, em cada fresta. O frescor das cores lembra Monet. Será que Monet gostava de gatos? Em outra cena, o amarelo do vestido da moça combina com a moldura. Ela tem o sorriso largo, Monalisa sem mistério. Talvez esteja feliz ao ver os gatos preguiçosos, ou com vontade de deixar o leque de lado e também se esparramar no chão. Ou talvez seja só charme para o monarca de bigodes finos do outro retrato. Quem poderia dizer o acontece aqui depois que todos vão embora?

Ah, o momento do apagar das luzes, do trancar das portas. Sem os olhares curiosos, sem as análises tão tediosas e vazias, sem testemunhas, eles poderiam se libertar de suas posições incômodas. O pobre vigia não se prende à festa da tinta que estremece, ao acordar de olhos e bocas.  Só se preocupa em ouvir o rádio, bebendo na garrafinha aquela água que poderia ter lavado mil pincéis.

Então decido: não vou. Os passos aos poucos se calam. O último grupo se retira, um David de Michelangelo me dá cobertura.

Ouço o roçar das chaves. Dez minutos. Meia hora. Uma hora inteira. Nenhum movimento, nenhum som, nenhum olhar.

Entre ansiedade e frustração, checo novamente o relógio. Os ponteiros se derretem como o daquele de Dalí. As cores pastéis de meus dedos borram o meu paletó. Meu rosto respinga na gola da camisa. Meus olhos escorrem em minha face.

Corro, mas nada encontro na escuridão. A mão derrete dentro do bolso, onde ainda encontro a lanterna acesa. Alcanço a porta. Deixo a moldura para trás.



Escrito por Ana às 11h51
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



Dias na Fazenda

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