Olhos d´água


Lavar os pratos

 

         A porcelana tilinta, prato sobre prato, à espera das mãos hábeis da copeira. Antes ornados com ramos de salsinha, poivres e bechaméis, agora mostram suas faces sujas, desenhos e superfícies irregulares, arte abstrata do último pedaço de pão. Antes tão esperados, aguardados por papilas curiosas e olhos salivantes, manuseados com tanto cuidado por garçons e convidados, agora são jogados de qualquer maneira sobre a pia.

         Os sortudos trazem na memória a refeição inesquecível, a combinação perfeita de sabores, o sorriso da barriga cheia. Outros, quase ainda intocados, carregam a vergonha da renúncia. Não passaram no teste e, cabisbaixos, tentam entrar embaixo da pilha.

         Devidamente raspados de seus restos, todos recebem o jato firme da torneira, a massagem da esponja e das bolhas de sabão. E, nesse momento, longe de seus resíduos de glória ou vergonha, se tornam muito mais que limpos: são iguais. O detergente lava os traumas e as diferenças, não há prediletos nem perdedores. Embalados pelo perfume de lima-limão e a maciez do pano de prato, vão encontrar seu lugar no armário, que os aguarda para o merecido descanso.

         Repousam, tranqüilos, enquanto os convidados sonham com um produto que leve embora a sujeira dos homens.



Escrito por Ana às 13h16
[ ] [ envie esta mensagem ]


Vinho tinto

 

         O líquido vermelho abriga muito mais que o sumo das uvas, seus fermentos e bouquets. A cor de carne, densa e turva, não deixa transparecer os ingredientes mais determinantes.

          Ao paladar, se for adocicado, traz o sorriso da criança no playground, a lágrima agradecida do vitorioso, a paz da mãe com filho que retorna.

         Quando a acidez desregula de vez o pH das mucosas e papilas, está cheio de olhares de cima abaixo, de que me importas e agora nãos.

         A bebida carmim e amarga não mancha só a camisa ou o vestido entremeado de fita. Ao ser desgustada, deixa marca, em estômago, fígado, tripas e coração, do sonho que nunca foi, do amor que nunca acendeu, do perdão que nunca chegou – devidamente envelhecidos em barril de madeira por muitos e muitos anos.

         Em domingos ensolarados, todas as variações ficam tingidas com a promessa da esperança em um único gole. “Eis o sangue de Cristo, o sangue da eterna aliança, que é derramado por vós”.



Escrito por Ana às 10h54
[ ] [ envie esta mensagem ]


O triste fim de Jurema  

 

Há tempos não via o pai, perdera a mãe e os irmãos há tantos anos que quase nem se lembrava mais de seus rostos. Podia ser sua culpa, mas não foi por querer, nunca seria. Quem gostaria de viver numa solidão dessas? E, depois, só pretendia fazer um carinho, correr os dedos pela cabeleira tão loura da mãe, sentir a aspereza da barba do pai, apertar as bochechas de seus irmãozinhos.

         Vivia numa casa cheia de silêncio e vazio. O sofá tinha desaparecido, assim como o interruptor do abajur, que ficara aceso para sempre. “Melhor que passar a noite no escuro”, pensou, e jamais tocou a cúpula de cetim florido novamente. A cama não tinha travesseiro, pois cultivava a mania de dormir com as mãos espalmadas sobre ele. Nem a convivência discreta dos livros sobrou para contar história. Xícaras restavam duas ou três e tudo tinha que ser bebido por canudinho, bem longe do alcance dos dedos.

         Tudo começara há uns sete ou oito anos. Não teve tempo de calcular, pois, semanas mais tarde, pegou o calendário para fazer as contas e ele evaporou. Naquele dia, levantou-se e foi escovar os dentes, mas a escova sumiu. Abriu a torneira, que desapareceu. E correu a abraçar a mãe, que nunca mais voltou.

         Agora, triste e isolado do convívio de todos, que se recusavam a apertar-lhe a mão, tinha apenas a companhia da iguana Jurema, cujas escamas lhe davam aflição.

         Onde estariam seus pais? Em alguma terra distante, felizes? Perdidos, precisando de ajuda? Aconchegados no sofá, a sua espera? Dorival “Mãos de Sombra”, como o chamavam, se cansou de esperar. Respirou fundo e colocou as mãos sobre o rosto. Jurema ficou sozinha.



Escrito por Ana às 11h40
[ ] [ envie esta mensagem ]

 
Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



Dias na Fazenda

02/12/2007 a 08/12/2007
25/11/2007 a 01/12/2007
07/10/2007 a 13/10/2007
30/09/2007 a 06/10/2007
23/09/2007 a 29/09/2007
17/06/2007 a 23/06/2007
13/08/2006 a 19/08/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
11/12/2005 a 17/12/2005
16/10/2005 a 22/10/2005
18/09/2005 a 24/09/2005
11/09/2005 a 17/09/2005
07/08/2005 a 13/08/2005
29/05/2005 a 04/06/2005
15/05/2005 a 21/05/2005
08/05/2005 a 14/05/2005
24/04/2005 a 30/04/2005
10/04/2005 a 16/04/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
06/03/2005 a 12/03/2005
27/02/2005 a 05/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
28/11/2004 a 04/12/2004
21/11/2004 a 27/11/2004
31/10/2004 a 06/11/2004
24/10/2004 a 30/10/2004
17/10/2004 a 23/10/2004
19/09/2004 a 25/09/2004
12/09/2004 a 18/09/2004
29/08/2004 a 04/09/2004
08/08/2004 a 14/08/2004
01/08/2004 a 07/08/2004
27/06/2004 a 03/07/2004
20/06/2004 a 26/06/2004
06/06/2004 a 12/06/2004
30/05/2004 a 05/06/2004
23/05/2004 a 29/05/2004
16/05/2004 a 22/05/2004
09/05/2004 a 15/05/2004
25/04/2004 a 01/05/2004
11/04/2004 a 17/04/2004
21/03/2004 a 27/03/2004
07/03/2004 a 13/03/2004
15/02/2004 a 21/02/2004




Abra a porteira para visitar também:
 Clube da Esquina Dois
 Olhos d'Água
 Frase e Efeito Estúdio Editorial
 Blog da Ritoca
 Chuva na Montanha, da Nilce
 Café com Prosa
 Thin Music
 Arte Vital, de Antônio Siqueira
 Retrato em Branco e Preto
 Silêncio Poesias, da Gisele
 Sex and the City, do Marcelo
 Pequenas coisas, infimidades e outras maiores
 Dobras da Leitura
 Baby in Manhattan, do Baby Luca
 Atire no dramaturgo
 Gato de máscara
 Casa Lygia Bojunga
 A Casa de Rubem Alves
 Gardenal
 Leitura invertida
 O Caracol do Ouvido