Olhos d´água


Lavar as mãos

 

A água escorre na memória

Molha minha lembrança

Dança toda a razão.

 

Vão se encharcando os momentos

Tempos de alegria e tristeza

esperam pelo sabão.

 

Bom para lavar a impureza

Ei-la indo com a espuma

Pura arte, a de esquecer.

 

Espero o filete tão claro

Abro os dedos num estalo

e lavo as mãos de você.



Escrito por Ana às 14h26
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O pacote

 

Todos usavam óculos escuros. Ninguém mais agüentava usar filtro solar, nem mangas e calças compridas. O dourado dos cabelos contrastava com a pele tostada, camarões saindo da frigideira, descascando. O calor, a areia escaldante, o sol que nunca descansava, nem deixava o povo daquela cidade repousar.

Como o astro estava sempre na mesma posição, ninguém sabia se era hora de dormir, de levantar, de almoçar ou de comer a merenda. Dormiam, mesmo com a claridade, mas não era aquele soninho gostoso, fresco, embalado pelo cricrilar dos grilos – esses, coitados, já tinham morrido torrados há muito tempo.

Até que, um dia – noite é que não poderia ser –, a cidade recebeu um estranho visitante. Vinha de sobretudo de lã preto, calça de veludo preto, camisa de camurça preta, gravatinha borboleta preta, um verdadeiro urubu. A pele, mais branca que parede, era tão alva que ardia aos olhos de quem o visse sob aquele sol.

O pálido forasteiro já começava a derreter debaixo daquela roupa toda quando anunciou em praça pública que vinha de uma terra distante, úmida, fria e – o prefeito quase caiu para trás – escura! E havia sido enviado por seu povo a desbravar o mundo em busca de luz para sua terra – e também para o pensamento de algumas pessoas. Mostrou a única bagagem que trazia: um pacote tal qual um travesseiro, negro e volumoso. “Se vocês me derem um pouco de claridade, a trocarei por um pouco de escuridão”, disse.

Os conselheiros foram chamados, realizaram-se plebiscitos e reuniões de cúpula. Sim, aceitariam a proposta, dariam um pouco de descanso a seus olhos, cuja cor já estava esquecida, e à pele, que estava mais para couro curtido. Até que enfim, um pouco de sombra e água fresca!

O dia da abertura do pacote foi uma festa. Todos em seus melhores pijamas, camisolas e penhoirs afofavam os edredons, arrumavam as redes nos quintais e nos cabelos, ajeitavam as dentaduras nos copos, ansiosos para o tão merecido descanso. O forasteiro subiu ao palanque ao som da banda municipal, que já ensaiava um “Nana Nenê”, e zap!

As sombras se derramaram pelas bordas do pacote e serpentearam pelo chão, cobrindo as pantufas dos cidadãos e o capim tão mirradinho da praça. Pintaram degraus e beirais de negro e tiraram a cor de paredes, janelas e telhados. Avançaram sobre as árvores quebradiças, cobriram a torre do relógio, e finalmente tomaram o céu, antes tão azul. A escuridão esfriou areias e cabeleiras. Todos foram dormir com os bocejos mais felizes do mundo.

No dia seguinte, no entanto, um acordou enquanto o outro voltava do trabalho, outro ainda jantou na hora do almoço do vizinho, a professora chegou à escola e os alunos não estavam lá (mas deu aula mesmo assim), um foi demitido porque chegou atrasado para uma reunião que ainda nem tinha acontecido e alguém terminou o namoro porque ficou um dia inteirinho esperando. Ninguém mais agüentava usar velas para se guiar dentro de casa, nem tatear ruas, árvores e calçadas para encontrar o caminho.

“Bota as sombras no pacote de novo!” – protestaram. Mas ninguém nunca mais colocou os olhos – quer dizer, as velas – sobre ele. E nem enxergou o forasteiro, nem a luz. Também, com aquela escuridão toda.  

 



Escrito por Ana às 12h08
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



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