O pacote
Todos usavam óculos escuros. Ninguém mais agüentava usar filtro solar, nem mangas e calças compridas. O dourado dos cabelos contrastava com a pele tostada, camarões saindo da frigideira, descascando. O calor, a areia escaldante, o sol que nunca descansava, nem deixava o povo daquela cidade repousar.
Como o astro estava sempre na mesma posição, ninguém sabia se era hora de dormir, de levantar, de almoçar ou de comer a merenda. Dormiam, mesmo com a claridade, mas não era aquele soninho gostoso, fresco, embalado pelo cricrilar dos grilos – esses, coitados, já tinham morrido torrados há muito tempo.
Até que, um dia – noite é que não poderia ser –, a cidade recebeu um estranho visitante. Vinha de sobretudo de lã preto, calça de veludo preto, camisa de camurça preta, gravatinha borboleta preta, um verdadeiro urubu. A pele, mais branca que parede, era tão alva que ardia aos olhos de quem o visse sob aquele sol.
O pálido forasteiro já começava a derreter debaixo daquela roupa toda quando anunciou em praça pública que vinha de uma terra distante, úmida, fria e – o prefeito quase caiu para trás – escura! E havia sido enviado por seu povo a desbravar o mundo em busca de luz para sua terra – e também para o pensamento de algumas pessoas. Mostrou a única bagagem que trazia: um pacote tal qual um travesseiro, negro e volumoso. “Se vocês me derem um pouco de claridade, a trocarei por um pouco de escuridão”, disse.
Os conselheiros foram chamados, realizaram-se plebiscitos e reuniões de cúpula. Sim, aceitariam a proposta, dariam um pouco de descanso a seus olhos, cuja cor já estava esquecida, e à pele, que estava mais para couro curtido. Até que enfim, um pouco de sombra e água fresca!
O dia da abertura do pacote foi uma festa. Todos em seus melhores pijamas, camisolas e penhoirs afofavam os edredons, arrumavam as redes nos quintais e nos cabelos, ajeitavam as dentaduras nos copos, ansiosos para o tão merecido descanso. O forasteiro subiu ao palanque ao som da banda municipal, que já ensaiava um “Nana Nenê”, e zap!
As sombras se derramaram pelas bordas do pacote e serpentearam pelo chão, cobrindo as pantufas dos cidadãos e o capim tão mirradinho da praça. Pintaram degraus e beirais de negro e tiraram a cor de paredes, janelas e telhados. Avançaram sobre as árvores quebradiças, cobriram a torre do relógio, e finalmente tomaram o céu, antes tão azul. A escuridão esfriou areias e cabeleiras. Todos foram dormir com os bocejos mais felizes do mundo.
No dia seguinte, no entanto, um acordou enquanto o outro voltava do trabalho, outro ainda jantou na hora do almoço do vizinho, a professora chegou à escola e os alunos não estavam lá (mas deu aula mesmo assim), um foi demitido porque chegou atrasado para uma reunião que ainda nem tinha acontecido e alguém terminou o namoro porque ficou um dia inteirinho esperando. Ninguém mais agüentava usar velas para se guiar dentro de casa, nem tatear ruas, árvores e calçadas para encontrar o caminho.
“Bota as sombras no pacote de novo!” – protestaram. Mas ninguém nunca mais colocou os olhos – quer dizer, as velas – sobre ele. E nem enxergou o forasteiro, nem a luz. Também, com aquela escuridão toda.
Escrito por Ana às 12h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|