Tempo de cortação
“Coelho é assim mesmo”, disse a mãe, tentando acalmá-lo. “Nasce dentuço, cresce dentuço e morre dentuço. Tem sido assim desde os tempos dos coelhos dentes-de-sabre”. Mas Renato não se conformava com aqueles incisivos cada vez maiores. Será que não iam parar de crescer nunca mais? Haja escova, pasta e fio dental! Quando era filhote, aproveitava para cortar as nozes mais teimosas, as cenouras mais resistentes, mas agora até andava encurvado com o peso dos dentões. Que vergonha! Como é que ia beijar Solange, que tinha os olhos mais vermelhos e o pêlo mais branquinho que ele já tinha visto?
Coelho é assim mesmo? Já estava cansado daquela baboseira! Era coelho e curtia ser coelho, mas por que tinha que ser igual a todo mundo? A única saída era gastar os dentões. Cortar, picar, morder, triturar, mastigar, reduzir tudo a pó até ficar com os dentes bem curtos e bonitos, como naquele comercial da tevê.
Cortou folha, picou fruta, mordeu raiz, triturou noz, mastigou planta. Achou toda aquela cortação uma curtição, mas os dentes continuavam gigantes. Então, pensou no único lugar em que a cortação poderia realmente ser testada em algo mais resistente: o palácio do rei! E, como era dia de festa, com a inauguração da nova linha de cipós e tudo mais, entrar seria moleza. E entrou. E cortou! Cortou tapete, picou almofada, mordeu cortina, triturou pé de mesa e, ao mastigar a toalha real, ela se mexeu! Doeu?
“Minha roupa de festa!”, gritou o rei, com um rasgo desse tamanho em seu roupão. O soberano esqueceu da sabedoria real, do compromisso real, da coroa real e até da pose real e foi atrás do coelho Renato. Se o coitado ainda fosse lebre...
“Coelho é assim mesmo”, disse sua mãe, tentando acalmá-lo, “Nasce com pompom, cresce com pompom, mas às vezes fica sem pompom”. Mas Renato não se conformava com aquele toquinho de rabo. Será que não ia crescer nunca mais? Por que ele não podia ser igual a todo mundo?
Escrito por Ana às 18h03
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