Batalha
Ela não queria entrar ali e pronto! Já desgostosa de ter seu corpo tão delicado decepado pela frieza do metal, não queria encostar nele de novo. Foi transformada nesse pedaço órfão, tão longe da segurança do carretel, onde se sentia aquecida pelo juntar das fibras, das cores. Por isso, faz questão de descabelar sua ponta que fora cortada como uma peruca de palhaço. E só um palhaço mesmo para se deixar tocar por aquele objeto que fica se achando, com um brilho idiota, só porque tem o poder de furar as coisas. Estraçalhar, isso sim, porque já ouviu que parentes daquela tinham arrancado sangue de carnes e peles. Assim, fica toda crespa na ponta, deixando os dedos frustrados. Talvez temerosos pela falta de habilidade, eles pedem a ajuda dos olhos, que pedem a ajuda da boca, que inunda a pontinha defeituosa de saliva. Argh! E agora esse banho forçado! Sente o líquido viscoso em sua trama, a desbotar seu vermelho que era tão vivo! Agora aquela extremidade capenga adquire aparência pontiaguda, como se tivesse sido feita para encaixar naquela abertura. É o fim. Deixa de resistir e sente seu corpo passar pelo aço frio e cortante. Agora vem a forca. Resignada, enfrenta bravamente o nó. Ainda tem a esperança de renascer, um dia, em uma saia rodada ou num cachecol colorido.
Escrito por Ana às 15h10
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Missão
Salto a nuvem azul com um sorriso
Dissolvo o verso sem gosto, impreciso
Salpico de voltas a roda, ciranda
Com valsa, volteio, salsa ou samba
Saco a tristeza e sumo pra lá
E o som sem sabor eu consigo salgar
Sai o sossego vazio da espera
Sacudo e tempero, sou sal da Terra.
Escrito por Ana às 14h58
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Minha vizinha
Lavar a garagem vestindo nada além de calcinha e sutiã cor da pele era apenas um de seus passatempos favoritos. No rol de atitudes condenáveis – mas comentáveis – figuravam dizer “bom dia” para a árvore, falar sozinha, dar susto no carteiro. Era Verônica, ou “a louca”, como era conhecida na minha rua. Parecia até nome de filme ou título de rainha da Inglaterra, sei lá. Só sei que a loura de cabelos cacheados e corpo rechonchudo e rosado morava em uma casa de tijolos amarelos, em frente à minha.
As mães imploravam a seus meninos que não fizessem seu portão de gol e, às meninas, que não olhassem para ela, nem brincassem com seus filhos. Diziam que os pobrezinhos andavam às turras com cabos de vassouras e canos de PVC que ela usava como corretivo. Um dia, no entanto, o manto de discrição e medo que recobria as casas não resistiu. Foi rompido aos berros de Verônica que, a plenos pulmões, gritava que tinha visto seu marido tocando violão com a vizinha, Marinês, no telhado de casa. E mais: os dois usavam sombreros coloridos, para quem quisesse ver. Aos gritos de “pistoleira!” e “sem vergonha!”, Verônica foi arrastada para casa pelo marido, olhos baixos e braços firmes. E não é que ele tinha mesmo um bigodão digno de mexicano?
Mamãe nos obrigou a ficar em casa, como se estivéssemos em um abrigo anti-nuclear à espera do pior. Mas não fiquei com medo. Queria descobrir como ela tinha aprendido a ouvir as árvores, a conversar com criaturas invisíveis. Queria saber como ela teve coragem de tomar banho de mangueira só com as roupas de baixo. E como é que ela tinha visto naquela vizinha tão triste e sem sal uma fogosa violeira de salsas e boleros apimentados. Talvez eu devesse ter seguido a parede de tijolos amarelos. Mas uma ambulância e muita tinta azul adiaram minha viagem para sempre.
Escrito por Ana às 14h50
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