Por um fio
Dona Carmen não podia mais com aquele peso. Andava com a cabeça baixa, os ombros apontados para o chão, as perninhas envergadas, como uma ave a procurar bichinhos na terra. Os casacos e xales de tricô já não ajudavam a disfarçar a protuberância. “Será que é problema de coluna?”, perguntavam uns. “Será que ela sempre foi assim?”, perguntavam outros.
Não, ela não tinha sempre sido assim. Dona Carmen já fora uma mulher forte, com jeito de bailarina, costas retas, queixo erguido. Mas depois vieram as reclamações do marido, a partida dos filhos, a falta de apego pelas netas... E Dona Carmen tinha que conviver com seu novelo de tristezas, que pesava mais a cada dia.
Ela já tinha consultado todos os ortopedistas do convênio. Infelizmente, nenhum tinha remédio, resposta ou solução. Seu novelo tinha até sido tema de tese de mestrado, mas sem conclusão. E a ordem de todos era uma só: pelo bem de suas costas, Dona Carmen tinha que se livrar daquela carga tão triste.
Mas como? A tristeza aumentava, o peso triplicava, Dona Carmen andava cada vez mais envergada, e começava tudo de novo. Com a idade avançada, ela já temia beijar o chão qualquer dia daqueles.
Um dia, ao vestir um de seus casaquinhos, encontrou um fio solto. “Tricotei tão direitinho e já está desse jeito?”, reclamou. Mas, ao puxá-lo, viu que não ele não pertencia ao azul marinho do casaco. Era de um cinza-calçada, sem graça, meio esverdeado, com cara de mofo. Era a ponta do novelo! E agora, o que fazer com aquele pedacinho de tristeza? Quando o assunto era lã, linha, barbante, ela só sabia fazer uma coisa: tricotar. Então, tricotou.
Começou com um gorro para a neta mais velha. Com o balé preciso das agulhas, a discussão com o marido sobre a conta do gás acabou virando a alegria da menina com as orelhas quentinhas. Para a caçula, um par de luvas, e a briga com o filho que foi estudar longe se transformou no abraço morno e macio da netinha. A saudade de seus tempos de moça tomou forma de cachecol. As polainas levaram embora mais alguns centímetros do novelo e de seus dias de solidão.
Olhos apertados e mãos hábeis, Dona Carmen nem viu o tempo passar. Ao cair da tarde já tinha terminado quase um guarda-roupa inteiro para as meninas. Até o gato Nicolau ganhou uma blusinha. Não se sentia cansada, mas renovada. E leve de um jeito a que não estava acostumada. Foi se olhar no espelho. A bailarina tinha voltado!
Resolveu colocar em prática seu tímido plano de visita às netas. Ao embrulhar as peças no papel de seda, viu que o cinza bolorento dera lugar a vermelhos-saci e rosas-beijo-no-rosto. Os olhos ficaram úmidos, mas era hora de ir.
As netas fizeram questão de vestir os casaquinhos, meias, toucas e chapéus até mesmo na hora de dormir. A filha e o genro sorriram colorido e Nicolau se enroscou de um jeito diferente nas pernas da senhora.
Dona Carmen voltou para casa sonhando com os fios do arco-íris, mas algo terrivelmente cinzento lhe ocorreu: como é que iria tricotar aquilo tudo de novo? Sim, por que as meninas estavam crescendo. Será que teria que ficar triste mais uma vez?
Perdida em seus pensamentos, escovava os cabelos brancos e muito lisos. Quase nem percebeu que um fio cor de rosa saía por trás de sua orelha direita. Com a ajuda de outro espelho, descobriu que uma linha alaranjada tentava brotar em sua nuca. E uma pontinha vermelha surgia de mansinho em sua testa, no melhor estilo pega-rapaz.
Quando o assunto era linha, ponta, fio, ela só sabia fazer uma coisa: tricotar. Então, tricotou. Os presentes das netas estariam garantidos. E Dona Carmen nunca mais teria que voltar ao cabelereiro.
Escrito por Ana às 12h08
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