O bobo
“Como é lindo!”, dizia a mãe. “Como é forte”, gabava-se o pai. “Tão inteligente! Quando crescer vai ser médico”, planejava o tio. “Que nada. Com esse charme vai ser é galã de Hollywood”, derretia-se a tia. As frases soavam tão macias quanto as mãos de sua mãe ao enxugar suas orelhas depois do banho.
Mesmo depois de tanto tempo, ainda procurava um elogio num cantinho aqui, um ponto de exclamação acolá. Onde estavam as palavras carinhosas, os tapinhas nas costas, as pinçadas nas bochechas? Tinha saudades dos passeios ao parque, ao zoológico, ao planetário e tantas outras excursões registradas nas fotos, hoje naquela caixa, tampa e memória presas por um elástico azul.
“Esse aí vai ser é aviador!”. Se pudesse ouvir o avozinho dizer isso só mais uma vez! Sempre a lembrar dos tempos dos pracinhas e a alisar seus bigodes de Barão Vermelho, o velho colocou sobre a cabeça do neto o boné e a esperança. Como se tentasse saborear os ventos daqueles dias, experimentava o presente do avô diariamente, sem exceção. O couro estava meio molenga, o marrom tinha saído voando para algum lugar, mas o perfume de nuvens ainda estava lá. Podia até imaginar-se com esses ares de aviador, mas nunca tirava a prova no espelho. Jamais.
Lindo, limpo e protegido por um tecido grosso, o espelho de moldura dourada nunca mais fora usado, pelo menos não por ele. Não refletiria a desgraça de seu presente e não estava interessado nem mesmo se, como nos contos de fadas, ele pudesse prever seu futuro.
As calças já estavam pelos joelhos, os pêlos invadiram o rosto antes tão branco. Agora ele era mais alto que o pé de laranja do quintal. Mas não era lindo, nem forte, nem inteligente, nem médico, nem galã de Hollywood. Nem aviador. As vozes foram se calando, a casa ficando cada vez menor e – engraçado – o vazio aumentando a cada dia.
Nunca mais se olharia no espelho, nem deixaria que outras pessoas enxergassem nele aquilo que não conseguiu ser. Pegou o bilhete já amarelado, em um ritual ensaiado tantas vezes. “‘A quem possa interessar’... será que nem bilhete eu sei fazer?”, pensou. Riscou o fósforo na caixa e deixou o calor e a claridade da chama vermelha também se apagar.
Escrito por Ana às 10h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|