Coffee break
Meus dedos procuram ávidos, as pontas atentas para diferenciar o último habitante entre as paredes da caixa. 4.720. Como é que tantas substâncias tóxicas podem coexistir naquele cartucho tão branco e estreito? Automaticamente, ele ocupa sua posição entre o médio e o indicador, nem muito alto, nem baixo por demais, para que seus fragmentos não batizem toalhas e tapetes imaculados.
Obtido o equilíbrio, o outro dedo entra em cena, fricção precisa e concentrada para não chamuscar os vizinhos. O vermelho e o azul transformam o bastão. Rojão, fogos de artifício. Os lábios tocam a maciez de algodão. A sombra do câncer, tumores e insuficiência cardíaca invade faringe, esôfago, traquéia e pulmões.
Como que arrependida, uma golfada de ar leva tudo de volta à atmosfera – ou, pelo menos, quase tudo. Mas tal qual general de fraco exército, não me incomodo com o sabor da derrota. Permito a invasão novamente e mais uma vez, até que o combustível, quase pólvora, se consuma por inteiro.
Escrito por Ana às 16h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Para Rachel e Alan
Ele nunca poderia esperar um presente daqueles. Não era o mais alto da família, nem o mais importante. Um dos irmãos gabava-se por ser uma das provas da evolução, mas ele? Humilde, tinha se acostumado a ficar em segundo lugar, em segundo plano.
Pego de surpresa, sentiu os poros se arrepiarem, o suor frio a encharcar suas marcas. Desta vez, não era aquele brilho prateado e frio da tesoura ou do bastão que empurrava suas carnes. Tinha aura dourada, calor quase solar.
Acolheu com prazer o cinto belo e tão perfeito para seu corpo. Um pouco inseguro, acalmou-se com as últimas palavras do ritual: “Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença”. E, feliz da vida, percebeu que nunca mais estaria sozinho novamente.
Escrito por Ana às 11h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|