Estrada de Ferro Araraquara
Pacientemente, como se admirasse a brancura dos braços pela primeira vez, pousava a mão direita sobre a camisa de flanela. Os dedos, desacostumados com tamanha maciez, deslizavam satisfeitos até a extremidade da manga. Um botão, dois, e o indicador e o polegar, fazendo as vezes de delicada pinça, tentavam chegar à dobra perfeita. Dobra de guardanapo, envelope. Dobra de origami. Depois, era a vez da mão esquerda fazer o agrado.
O branco de sabão em pó da pele durava poucos minutos. A fuligem do carvão vinha tingindo, grafite em vários tons. A pintura só era rompida pelo saltar das veias, o sangue locomotiva apressada como o próprio trem que se alimentava daquela fornalha. A pá que remexia o carvão já tinha se tornado uma extensão do corpo de meu bisavô. Vô forte, vô homem de lata que eu não conheci.
Quando rosto e mãos já invejavam a alvura de pés e pernas a salvo do pó e do suor, ele finalmente cumpria o ritual ao contrário. Meu bisavô e os botões voltavam para casa. De banho tomado e camisa limpa, ele nunca se preocupava em protegê-la à hora do jantar. Colecionava as nódoas de vinho como recompensa por mais um dia.
Escrito por Ana às 18h45
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