A verdade sobre os biscoitos
Palitos franceses, rolinhos dinamarqueses, bolachinhas do raio-que-o parta. Não sei para que todos esses nomes sofisticados, se todas as quitandas de minha mãe tinham a mesma gênese viscosa e humilde: a nata do leite, a camada amarelada e rançosa que ninguém queria, o resíduo do coador que me dava arrepios.
O “copinho de juntar nata”, como era chamado, ficava na porta da geladeira e se tratava, ironicamente, de um copo desses de requeijão, como se o vidro não soubesse mais ser copo sem estar associado a proteínas e gorduras. Ao abrir o eletrodoméstico à procura de um danoninho ou mais um pedaço de manjar, eu tentava não olhar para aquele copo suspeito. Fazia de conta que ele não existia, que nunca tivera ameaçado meu apetite com seu aspecto de algo que acabara de voar da boca de um bebê.
Os dias só ficavam mais felizes quando o azedume daquela pasta leitosa dava lugar ao cheirinho dourado das bolachinhas que saltavam das formas, estrelas-cadentes cheias de sabor. Eram palitos, tranças, bolinhas, flores e até mesmo singelas estrelinhas, salpicadas ou não por açúcar de confeiteiro, açúcar cristal, canela.
Em vez de ficarem escondidos em porta de geladeira, atrás do catchup ou de alguma geléia de validade vencida, os biscoitos mereciam lugar de destaque. Ficavam expostos na compoteira de vidro sobre a mesa, adornada pela toalhinha de crochê da bisa. O tilintar da tampa fazia coro com os croc-crocs de nossas mordidas, as migalhas cobrindo o chão imaculado para desespero de minha mãe. Doces, crocantes, nem sombra do creme rejeitado e, agora, esquecido.
Passados alguns dias, os biscoitos desapareciam milagrosamente, a compoteira guardava apenas migalhas e o copinho nojento voltava para a geladeira. Era quase como se nata e biscoito, origem e evolução, não pudessem existir na mesma cozinha ao mesmo tempo. Podia ser segredo de quituteira, mas eu preferia pensar que era coisa de identidade secreta de super-herói.
Escrito por Ana às 11h50
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