45 do 2º
Todos os olhos estavam apontados para ela. As super objetivas das câmeras, a atenção do locutor ofegante, suas palavras trôpegas. O “1” e o “0” podiam não ter nada de extraordinário, eram até do mesmo verde do gramado, mas uma vez juntos – nessa ordem –, e sobre um fundo amarelo, a coisa mudava de figura.
E ela não parava um só minuto. A barra ora se escondia dentro do calção, ora teimava em se exibir, para a ira do bandeirinha. Voava como flâmula ao vento pela lateral, até chegar à linha de fundo. Aos poucos se tingia do marrom lamacento do solo úmido, depois de tantos tombos, peixinhos, entradas maldosas, faltas – algumas sofridas, outras simuladas. Já estava colada ao torso e o suor a tornava quase transparente.
43 minutos, o cronômetro louco para encostar no 44. 1 x 0. Para o adversário. Ainda dá tempo? A número 9 cruza na área. A camisa 10 se prepara para mais um de seus vôos fantásticos, de fazer jus ao carinhoso apelido de passarinho. Mas não decola. Assusta-se com a rispidez do golpe, tenta se encolher, mas já é tarde demais. As fibras do poliéster se rompem, a costura perde o rumo e ela vai ao chão. Aos 45 do 2º tempo. Foi pênalti, mas o juiz não viu.
Escrito por Ana às 11h02
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