Joana
Estava decidida. Não agüentava mais tanta palhaçada de Luiz Henrique. Eram baladas e bebedeiras sem fim, sem arrependimento, sem olhar pra trás. Nunca era convidada para esses eventos que pareciam tão divertidos. Tudo bem que não suportava os amigos dele, sempre cheirando a cigarro, uísque de quinta e perfume barato, mas realmente se esforçara em descobrir e, então, aceitar o que Luiz enxergava nessas criaturas do subterrâneo que tanto valia o que chamamos de amizade. Engoliu sapos, manteve seus lagartos encarcerados, tudo para não causar conflito, e olha só no que deu. Eram namorados, mas tinham vidas separadas, como se fosse não apenas duas, mas quatro pessoas tentando se relacionar.
Já tentara algumas vezes, sem sucesso, mas agora se sentia pronta para encarar seu maior desafio: terminar tudo – e de uma vez por todas. Lançou mão do telefone, digitou apressada os números que guardara com tanto carinho na mente e no coração. Uma voz abafada apareceu do outro lado da linha e foi testemunha de um dos maiores derramamentos de palavras da história. Sem dar chance alguma para possíveis contrapontos e retaliações, disse que não era mulher daquilo, que não tinha sangue de barata, que merecia alguém que realmente lhe desse carinho e atenção, que não virasse a cabeça para olhar qualquer vagabunda, que não se passasse por santo diante da mãe e da sogra para depois se revelar como cafajeste digno de novela das oito. Poderosa, ainda emendou que sempre fingira tudo, que ele não era homem nem nada e mais uma porção de desaforos. Ninguém a trataria daquele jeito e, se tentasse de novo, iria ver o que é bom pra tosse.
Só conseguiu se acalmar quando a secretária fez “clique”.
Escrito por Ana às 11h23
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