Uma equipe muito especial
Onze da noite às cinco e meia da manhã: esse era o unido período do dia em que finalmente repousavam, estendidas ao longo do corpo, a direita tal qual sentinela para o minuto preciso em que o despertador tocasse. Eram as primeiras a acordar ao som das notas agudas e repetitivas. E como despertavam!
Não cumpriam apenas a rotina costumeira de várias mãos ao redor do mundo, do escovar de dentes e cabelos, do abrir e fechar de portas e gavetas, do ligar e desligar de utensílios domésticos. Amassavam, emolduravam e salpicavam bolos e bolachinhas, desnorteavam as colheres de pau na hora do almoço, inventavam caixinhas de mosaicos, sonhavam em canvas, redimiam lençóis e almofadas disformes e faziam do reinado do lustra-móveis uma realidade. Fazedouras. Assim eram as mãos de minha mãe. O curioso é que as duas nunca foram muito dadas ao crochê, ponto cruz e outros trabalhos do gênero. Talvez fossem criativas ou serelepes demais para seguir riscados e modelos de revista.
Apesar da intensa rotina, estavam sempre com as unhas polidas e nas cores da moda, ainda recendendo ao perfume do creme hidratante. Mesmo à hora da novela, dedicavam-se a afofar a gata como pão sovado, ou a um cafuné que mais parecia uma gafieira em nossas cabeças. Qual seria o segredo de tanta vitalidade? “Vitamina E”, diria minha mãe, enquanto as duas se uniam, guardando as palmas e a resposta.