Tarde de domingo
24 horas. É isso que uma mosca tem para viver: 1.440 minutinhos para procurar alguma geléia sem tampa, atazanar o ouvido de alguém, ainda largar seus descendentes pelo mundo e é isso, the end. E se o homem, como a mosca, tivesse apenas 24 horas para deixar sua história na Terra? Essa curta existência poderia ser muito bem um dia de domingo. Sim, é sabido que, aos domingos, os preguiçosos de plantão ficam “às moscas”, ou “moscando”, mas essa não é a questão.
O domingo geralmente começa antes e cheio de expectativas. É a visita do garoto ao circo, a final do futebol para o paizão, o dia em que a mãe irá finalmente mandar o almoço às favas e declarar independência do alto da geladeira. A manhã de domingo é a infância, repleta de sonhos e promessas. E a esperança de que vai dar tempo de levar o Rafael ao parquinho, assistir ao Esporte Espetacular e ainda lavar o carro, tudo isso antes do almoço.
Sim, porque depois da macarronada, meu amigo, é que o mundo perde sua inocência e a verdade – e a barriga – vêm à tona. O menino não acordou a tempo de ir ao parquinho e, em retaliação, se dedica a bater todas as portas da casa. Os gols da rodada e o carro incrivelmente sujo ficaram para outro dia, graças a uma viagem de emergência ao supermercado para queijo ralado e uns guaranás. É depois do almoço, estufados e macambúzios, que percebemos e aceitamos o fato de que nem tudo é possível. O adulto da tarde olha com saudade para a criança da manhã, tão carregada de planos e entusiasmo e, ao mesmo tempo, tão leve – em todos os sentidos.
A melodia deprimente do Fantástico anuncia a chegada do final do domingo, que poderia ser muito bem o fim de tudo. Após erradicar do planeta os últimos resquícios do almoço – devidamente ressuscitados no microondas–, como um velho que recorda a juventude com amargura, você percebe que acordou tarde, não fez nada do planejado, o moleque já arrebentou todas as portas e gavetas da casa e – misericórdia – o sal de frutas acabou. Feito ancião de barbas longas e palavras curtas espera pacientemente pelo desfecho – e apenas que ele não seja doloroso demais.
Para quem acredita em reencarnação, o episódio é apenas uma passagem para outra etapa da vida, mais pacífica, plena e feliz. O problema é que depois do domingo vem a segunda-feira.
Escrito por Ana às 11h17
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