Passaporte para o céu
Se não me falha a memória, os ingredientes são: farinha de milho de moinho do interior, queijo minas fresquinho, um pouco de manteiga para domar a maçaroca e aquela banana meio triste, esquecida na fruteira, mas com cara de quem ainda tem potencial para doce, torta, mingau ou coisa que o valha.
A panela de ferro, assim como o fogão a lenha, hoje são considerados meras participações especiais mas, nos velhos tempos, atuavam senão como atores principais, coadjuvantes que davam aquele sabor à trama – neste caso, um emaranhado de fios elásticos do queijo que começa a derreter. E por mais que o teflon e os fogões de aço inoxidável tenham conquistado seu papel nos sonhos e mãos de cozinheiras habilidosas, a colher de pau ainda reina absoluta na hora de fazer o blend de matérias-primas de texturas tão distintas.
Então, adiciona-se à receita um ritmo de passista de escola de samba, para que tudo fique bem misturado e não grude na panela, já que o teflon nem sempre é legítimo – nem a manteiga –, a expectativa e os beiços brilhantes de entes queridos e agregados em geral e um aroma que parece bater a todas as portas da casa. Ao final, retiram-se as broncas do chefe, a dor de cabeça do resfriado, a conta do crediário atrasada, a torneira com pinga-pinga sem fim e está na mesa!
É nessa hora que me liberto de minha humilde condição terrena e, à velocidade das garfadas, quase vou para o céu. Meu passaporte? Viradinho de banana.
Escrito por Ana às 09h55
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