Olhos d´água


Travessia

 

         Arriscava colocar só um dos pés sobre o asfalto, mas logo sentia o vento morno dos caminhões, um verdadeiro tufão para aqueles dedinhos tão frágeis. Também, quem é que mandou tentar cruzar ali, sem faixa de pedestre, sem farol, sem guarda? Nessa confusão, sua condição de bípede de nada lhe valia.

         Olhava para a esquerda e para a direita, virando o pescoço pelado sem pressa, como a mãe tinha ensinado. Nada, o horizonte limpo, somente algumas árvores ao fundo. Mas bastava ensaiar um passinho e vruuuuuuuum.... Carros de todos os tamanhos e modelos, caminhões com número recorde de eixos, só faltava mesmo um transatlântico criar pernas – ou melhor, rodas – e passar por ali. Verde, vermelho, azul. Verde, vermelho, azul. Será que eles só existiam naquelas cores?

         Na verdade, algo dentro dela dizia que não precisava atravessar a rua tanto assim. Poderia resolver seus pequenos afazeres por ali mesmo, sem trocar de calçada. No entanto, alguma coisa mais forte a impelia a seguir em frente, os olhos atentos, as perninhas magras sem descanso. Engraçado. Parecia que já tinha passado por aquilo tantas, tantas vezes.

         Não podia mais esperar. A rua deserta. Olhou para um lado, para o outro, para baixo e para cima também (só para garantir), engatou uma primeira e arrancou.

         Batata. Os caminhões e carros se materializaram do nada, como se tivessem brotado de algum bueiro ou boca de lobo gigante. Desviou de um Fusca verde e seus planos de uma trajetória retilínea – e, portanto, mais curta –, foram para o beleléu. Agora um Fiat vermelho. Nossa, quase! Um Impala azul. Ufa, essa foi por pouco! Um modelinho japonês quase a pega de jeito nessa coreografia maluca. Já podia ver a guia: a cobertura cinzenta de cimento nunca lembrara tanto o frescor de um oásis.

Mais alguns passos, uma corridinha bastaria. Como um fundista que guarda o último fôlego para os metros finais, acelerou. Vruuuuuum.... Não contava com o caminhão tanque.

A galinha jaz inanimada na pista. Game Over. Vai começar tudo de novo.



Escrito por Ana às 13h52
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



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