Quarta-feira
Não queria brotar e ponto final. Que se dane o nasce, cresce, reproduze-se e morre dos livros de biologia. Já era tão perfeita encerrada em si mesma, a casca lisa e brilhante, o embrião com folha tenra protegido para sempre, independente dos raios de Sol, dos pingos da chuva, dos cuidados do homem.
Jamais teria que se preocupar em levar suas raízes cada vez mais ao fundo, à procura da água mais cristalina e do nitrato mais rico. Não queria pensar na força necessária para fazer o caule crescer e não virar motivo de risada ao ser envergado pelo vento. Não passaria pelo sofrimento de ver suas folhas carcomidas por algum inseto pegajoso ou pela ação do tempo. Nem queria entrar naquela teia de vaidades, expectativas e compromissos. Não.
E os frutos? – diriam alguns – como não pode levar adiante a sua própria espécie de raça, talvez sobreviver de outra forma no brilho vistoso das folhagens ou no sabor delicioso de seus descendentes? Ou mesmo em suas próximas gerações de sementes, quem sabe tão lisinhas e seguras como ela?
Não, não seria plantada nunca. Passaria todos os seus dias encerada e intocada qual boneca de porcelana. Descobriria uma forma de ficar bem no fundo do saco de estopa; tentaria conquistar as mãos e os olhos do agricultor que, comovido por sua beleza, nunca ousaria transformá-la em outra coisa qualquer.
Passou despercebida pelas mãos calejadas do empregado, mas não pelos dedos hábeis da cozinheira. Hoje é dia de feijoada.
Escrito por Ana às 16h26
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