História de mocinha e bandido
Virgílio, armado de grande coragem, entra no cinema à procura de Margarida. No escurinho do corredor, topa com uma poltrona vazia. Resolve se sentar lá enquanto ela não chega. Ainda dá tempo, o trailer acabou de começar. O pessoal se ajeita nas cadeiras. A música de abertura invade o ambiente: é um fox-trot, deve ser um filme de época. E, como no prelúdio da cena em que a mocinha aparece pela primeira vez, surge Margarida.
Linda, altiva, vestido branco, casaquinho combinando. O cabelo preso no alto da cabeça, meio Audrey Hepburn. Virgílio não enxerga muito bem em ambientes pouco iluminados, mas reconhece as pernas bem torneadas, a cintura precisa, o decote recatado porém revelador. “É mesmo uma estrela”, pensa. Não tem tempo de admirar os olhos azul-turquesa. “Margarida, minha flor, onde você está indo?”. Ela segue para o toilette feminino. Virgílio resolve fazer uma surpresa e esperá-la na porta. Margarida sai, ele consegue alcançar sua mão, mas ela repele o toque. Calmamente, se dirige para o balcão de doces. “Deixe que eu compro para você, minha flor”. Mas ela diz que não pode aceitar e segue para as poltronas, sem ao menos olhar para trás. “Ah, está brincando de gato e rato...”. Mas Virgílio não quer enxergar o que vê em seguida.
Margarida, sua flor campestre tão amada, sentada ao lado de um sujeito qualquer, metido num terno de quinta, com o braço por cima do ombro dela. Não, não poderia ser ela. Esfregou os olhos. O cabelo, o vestido, os brincos de pérola. Era Margarida. Resolve tirar satisfação. Afinal, é homem e não pode ser humilhado dessa maneira. Pede desculpas aos demais expectadores da fileira, se aproxima e em voz baixa, porém firme, pergunta o que ela estava fazendo ali, quem era aquele cara, porquê ela tinha o ignorado desde sua chegada ao cinema, que história era aquela. Tentou manter a compostura, mas não pôde se conter. Lágrimas rolaram por seu rosto. Apesar de tudo, era a Margarida.
Os seguranças apareceram em poucos minutos e, sob o olhar curioso dos demais pagantes, Virgílio foi delicadamente escoltado para fora do cinema. “Quantas vezes a gente tem que explicar que essa Margarida está é na sua cabeça, homem? Toma jeito, Virgílio!”.
No sábado seguinte, Virgílio, armado de grande coragem, entra no cinema à procura de Margarida. No escurinho do corredor, topa com uma poltrona vazia. Resolve se sentar lá enquanto ela não chega.
Escrito por Ana às 09h09
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Vai-se a infância…
Vai-se a infância
Ânsia de seguir como rio
Desafio
Estender o braço e crescer
Não caber no sapato
No vestido
Insensato, descabido
É o homem perdido
Entre o adulto e a criança
Vai-se a infância
Extravagância desse plano divino
Menino cria barba e bigode
Uma ode ao futuro tão crescido
Descabido, insensato
É o homem que não cabe no sapato
E que há pouco não passava de menino
Vai-se a infância
A trança vira serpente de medusa
Usa no lábio a tinta da fruta madura
Tão pura
E agora com desejos de verão
Transformação atende a um simples pedido
Descabido, insensato
Da mulher que não cabe no vestido
Foi-se a infância.
Ânsia de não crescer
Se esquecer de virar rio.
Tempo insensato, descabido
Que saudades do sapato
Que saudades do vestido.
Escrito por Ana às 09h11
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