Mudança de hábito
Cansado de assustar os outros e de envergar sempre o mesmo lençol branco e empoeirado, tirou seu uniforme, o amassou com toda a força e a raiva do momento e o jogou num canto. O engraçado é que como o lençol nunca tinha sido lavado e o fantasma tinha quase chegado à aposentadoria após exatamente 987 anos de serviço – depois que um certo fantasma sociólogo assumiu a presidência do sindicato, foi estabelecido um mínimo de 1000 anos –, o tecido ficou duro, como que engomado pelas freiras dos conventos que assombrou durante a Guerra dos Cem Anos. Tão resistente, porém dobrável, que mais parecia uma folha de papel amassada. E não é mesmo esse o destino dos planos fadados ao fracasso: uma folha de papel amassada e esquecida em algum canto?
Cada dobra revelava uma passagem de sua vida profissional. Uma mancha amarela ainda carregava a cera das velas dos mausoléus dos cruzados. Os riscos azulados vinham da Idade Média, quando um monge maluco quis transformá-lo em Santo Sudário. As pontas chamuscadas eram resquício de sua quase carreira como mortalha de membro da Ku Klux Klan.
Era tudo culpa daquele tecido sem vida. Sim, ele mesmo já havia morrido, mas o lençol impedia que os outros vissem o verdadeiro fantasma que vagava por ali, quem é que realmente arrastava correntes, dava gritos grotescos em tumbas e cemitérios e provocava calafrios. O lençol não deixava que enxergassem seu verdadeiro “eu”.
E assim, nu e livre daquele fardo, encerrava sua carreira. Invisível, porém presente, ganharia a vida como alma penada.
Escrito por Ana às 18h17
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Minha rua sem esquinas
O inesquecível das esquinas da rua onde eu morava era exatamente a ausência delas. Isso mesmo. O palco dos meus concorridíssimos chás de boneca, brincadeiras de acampamento e de polícia e ladrão não tinha esquinas. Era um amontoado redondo de sobrados, cercado de asfalto por todos os lados – e, portanto, circular. Tanto que se chamava Rua do Contorno, embora eu tenha demorado uns dez anos para perceber o porquê.
Com toda a sua peculiaridade, é claro que uma rua sem esquinas trazia lá suas complicações. Na hora de dar informações, por exemplo, nunca se tinha o gosto de dizer: “basta dobrar a esquina”. Ao sermos indagados sobre a localização dos sobradinhos, os lábios se apertavam em constrangimento frente à falta de referências, pois era impossível explicar “é na esquina com...”. Para as mães cansadas da molecada na idade dos porquês – e uma das indagações mais freqüentes era exatamente o porquê do aspecto encíclico da rua –, o clássico “Vai ser se eu tô na esquina” era simplesmente impraticável.
Por outro lado, uma rua redonda também tinha suas vantagens. Quando andávamos de bicicleta e as mães reclamavam que a janta já estava esfriando sobre a mesa, a gente fazia coro: “Ah, mãe, só mais uma voltinha!”. Sim, uma mísera volta a mais, mas alguém por acaso sabia onde ela começava e, conseqüentemente, terminava? E a mesma coisa valia para os patins, o skate, o patinete. A circularidade daquela rua era um verdadeiro trunfo contra a ditadura matriarcal!
Visitar o outro lado da rua, então, era como desbravar um hemisfério desconhecido, onde o geladinho de frutas era mais barato e as Barbies das outras garotas tinham roupas muito mais estilosas. Em nossas fantasias mais delirantes, a Rua do Contorno também copiava a Terra em seu movimento de rotação e os lados se alternavam em dia e noite.
No girar ininterrupto das excursões ao redor do quarteirão, era como se a infância também nunca fosse chegar à sua última volta. Mas tudo mudou quando meu pai comprou uma casa em uma rua com começo, meio e fim.
Escrito por Ana às 10h08
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Molecagem
Perdera a dentadura há alguns dias e – sabe como é cabeça de velho – até desistiu de procurá-la. De que iria adiantar? Uma vez os óculos resolveram evaporar como carteira de pão-duro na hora de pagar a conta, e só mandou fazer um novo par depois de ficar cansado de bater a cabeça na parede.
Tinha saudades do nhac, nhac. Há dias só tomava, não comia propriamente. Sopa disso e daquilo, sorvete, iogurte, coalhada, purê, angu, qualquer tipo de maçaroca que as gengivas pudessem fingir mastigar. Tinha a impressão de estar sempre comendo bala puxa-puxa. Tinha rezado tantas noites de sua infância, terço e água benta em punho, para que a mãe se esquecesse para sempre da força e vigor do leite gordo, da carne gorda e das verduras – magras, mas igualmente sem graça – da fazenda, e o alimentasse exclusivamente de cocadas, doce de leite, pé de moleque, quebra-queixo e, é claro, balas puxa-puxa, suas prediletas. Gostava de sentir a mandíbula superior grudar na inferior, como que selando um pacto de saliva e jurando por tudo de mais sagrado e de doce que jamais contariam seus segredos.
No entanto, o encanto pelas balas tinha ido embora, assim como seus dentes, e era preciso encontrar a bendita dentadura. Convencido de que algum saci tinhoso vinha o seguindo desde seus tempos de molecote na fazenda, até comprou uma peneira, fez a tal cruz de taquara e providenciou uma garrafa para aprisionar o negrinho, mas ele não apareceu. A única solução era um remédio amargo para o bolso: encomendar seus dentes mais uma vez. Talvez eles pudessem fazer companhia ao novo par de óculos, que não tinha muito assunto com a dentadura antiga – materiais de décadas e tecnologias diferentes não se bicam.
Preparou-se para ir ao dentista mais próximo e, ao abrir a porta do guarda-roupa para pegar uma capa de chuva, deu de cara com umas roupas de criança. E o mais estranho é que elas estavam recheadas! Reconheceu os olhos azuis, as sardas, os pés vermelhos de tanto correr no chão barrento da fazenda. Nos bolsos do menino, um estilingue, algumas fubecas e, juntos e bem escondidos, os óculos antigos e a dentadura. Tirou a capa e foi para o quintal chupar uma bala. Não queria mais óculos, nem dentes novos. Ia respeitar suas vontades de menino.
Escrito por Ana às 14h58
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