Olhos d´água


Maçã

 

         A casca é baú sem fechadura nem dobradiças, que só eu sei como abrir. É rajada de vermelho, como se ao mesmo tempo quisesse chamar a atenção, mas também mostrar que é bicho arredio, camuflado, que somente olhos muito bem treinados conseguem enxergar.

         Tal como marruá, demora a se deixar dominar, parece não querer ser gostada. A casca firme bota panca, exige um certo esforço, mas logo se desfaz para revelar uma polpa que massageia a língua. Com o sabor também é assim: primeiro apresenta o azedume, como se na esperança de que se desista de seguir em frente e as mordidas cessem por completo. Mas muda de idéia num instante, entregando-se em seu gosto macio, úmido e adocicado.

         Somente depois que a polpa amarelo pastel chega ao fim é que ela revela sua origem. Mostra as sementes sem brilho, cor, nem exuberância. Muitos diriam que as esconde dentro de si por vergonha de sua gênese tão humilde. Outros, entretanto, poderiam pensar que, depois de tanta maciez e doçura, ela poderia finalmente revelar seu segredo. Já seria impossível não admirá-la. Seria tarde demais, e a semente minúscula alojada na caverna disforme poderia ser a solução para o mais belo mistério do mundo.



Escrito por Ana às 10h15
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A revolução do espirro

 

Para Patrícia

 

Nunca segure um espirro! Essa era a ordem de Vô Luiz desde que aquelas crianças se entendiam por gente. Ele se recusava a tocar no assunto e, mesmo quando era inverno e estavam todos metidos nas cobertas e de nariz escorrendo, ele fingia não ter compaixão pelos netos cheios de sintomas, e teimava em não contar por que é tinha se apegado tanto a esse acontecimento das vias respiratórias. “Espirrem com garra!” – dizia, num tom quase militar – “Libera esse nariz, menino!”.

Uma vez, Ermelinda, empregada há anos com a família, disse que Vô Luiz pegou essa mania depois de uma tarde em que o padre veio visitá-lo e, para não fazer feio na frente do vigário, o velho teve a atitude muito recatada e religiosa de segurar um espirro. Mas o pobre fez tanta força que acabou estourando uma veia no peito, e então foi aquela correria para a Santa Casa, cirurgias e benzeduras sem fim. Desde então, nunca mais tinha tentado disfarçar um só espirro. Vô Luiz negou aquela história até a morte, ainda rogou praga de uma gripe crônica pra cima da Ermelinda e ficou por isso mesmo.

Naquelas férias de julho, como bons netos que eram, as crianças resolveram seguir os conselhos do Vô e, à primeira coçada do nariz, ensaiavam o maior espirro do planeta. Narizes que escorriam timidamente em poucos minutos se transformavam em um grande chafariz. E os atchins, então? Sim, porque espirro que se preze tinha que ser original, alto e até – por que não – ter sua própria melodia. A neta mais nova espirrava em tons agudíssimos, em notas que pareciam arrebentar tímpanos e janelas. O neto mais velho respondia com um “atchô!” digno de barítono com nariz de trombone, enquanto a tia solteirona se limitava a um atchim discreto e respeitoso, quase imperceptível – uma verdadeira vergonha para o Vô Luiz, ele mesmo mais chegado em um espirro-tenor. E ao ouvir os espirros causados pelo sol logo cedo, o velho corria feliz pela casa em busca de papel higiênico.

A criançada, embevecida com toda aquela liberdade para com os ruídos  naturais, depois de passar suas pequenas vidas segurando tantos espirros libertadores, resolveu radicalizar. Tal qual os bolcheviques, Vô Luiz o Lênin daquele momento histórico, resolveram abolir toda e qualquer tentativa de repressão a todos os barulhos produzidos pelo organismo. E assim, além de espirros mais ou menos molhados e sons variáveis, liberaram também os arrotos, puns e até aquele barulhinho irritante de raspar a garganta. Toda aquela liberdade musical não estava delimitada para os momentos no toalete, ou para depois das gordas refeições de Ermelinda, no caso dos arrotos: os ruídos orgânicos estavam liberados a qualquer hora e circunstância do dia, na frente da avó, dos pais, da tia solteirona, da professora ou do raio que o parta. Para preservar essa autonomia, o vigário era peixe pequeno: estavam dispostos a enfrentar até o Papa!

Quando já ensaiavam um arroto homérico de independência, seguido por uma bufa-gás-paralisante e um espirro-trovão, em homenagem ao avô e patrono, mães, pais e puxões de orelha sufocaram a rebelião. Adeus liberdade, adeus novos valores, adeus barulho, adeus diversão. O avô agora observava à distância, mas entendeu o recado. E hoje espirra tão baixinho que ninguém percebe. 



Escrito por Ana às 09h36
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



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