Perfume
Dizem que cheiro de flor lembra velório, enterro, defunto, mas prefiro não pensar nessas coisas. Como é que esses pequenos sóis de veludo podem remeter a um amontoado frio e rígido de músculos, tendões, ossos e tecidos? Deve ser por isso mesmo que os mortos são acomodados nos caixões circundados por crisântemos macios e perfumados. Última homenagem e último conforto, formam uma prece que envolve o corpo e a alma. Um dos crisântemos vai na lapela do terno definitivo, a pequena haste presa ao tecido, como se algum último sopro de vida tivesse passado desapercebido e resolvesse brotar ali.
Não há companhia mais justa para quem será privado da fragrância dos cabelos da mulher, do cheiro de café nas manhãs de domingo, da maresia de final de tarde. O olfato não responde, mas o perfume está lá, e anuncia uma eternidade de doçura em flor.
Escrito por Ana às 09h44
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