Olhos d´água


A batalha dos doentes

 

         Meus avós nunca foram muito competitivos. Na verdade, travavam pequenas disputas com eles mesmos: minha avó apostava quantos cigarrinhos conseguia fumar sem que meu avô percebesse, enquanto ele marcava na caderneta quantas partidas de carteado já tinha jogado sem que ela soubesse.

         Mas veio o tempo e, com ele, a idade e as dores. Os dois, antes tão cheios de vida, andavam desanimados e pareciam ter guardado energia para se dedicar exclusivamente a uma única gama de assuntos: doenças, médicos, exames, enterros e remédios, muitos remédios. Em gotas, cápsulas, drágeas, pastilhas de chupar, comprimidos de engolir, xaropes e supositórios. Se fosse injeção, melhor ainda. E a palavra “intravenal” tinha uma sonoridade toda especial, que enchia as bocas dos doentes e os cômodos da velha casa.

         Como se não bastasse falar dos benditos medicamentos, deram de tomá-los também. Se detectavam algum movimento suspeito da unha do pé ou da sobrancelha esquerda, corriam para o armarinho do banheiro, a arca que guardava seus tesouros.

         Meu avô levava vantagem por ser o homem da casa: gastava quase todo o dinheiro de suas corridas de táxi na drogaria mais próxima, que lhe oferecia ótimos descontos, verdadeiros analgésicos para o bolso. Minha avó, dona de casa e dependente de uma mesada sem-vergonha, tinha que apelar para aquele charminho que todo doente tem. Percorria as farmácias e boticários do bairro e, depois de uma tossidinha aqui, um olhar de leito de morte ali, voltava para casa triunfante, carregada de amostras grátis.

         Como em toda boa guerra, não bastava apenas mostrar o poder de armamentos e munição. Havia também o conflito psicológico.

         - O que é essa caixinha minúscula aí? – provocava meu avô.

         - É Claritim. Loratadina, naturalmente. Indicado para o alívio de sintomas associados com rinite alérgica, tais como coriza, espirros e prurido nasal – respondia minha avó, com ares de otorrinolaringologista com PhD em Harvard, resultado de horas e horas dedicadas à leitura de bulas.

         - Apresentação?

         - Comprimidos revestidos. Dez miligramas.

         - Dez miligramas? Isso é para amadores!

         - Pois fique o senhor sabendo que tenho consulta marcada com o doutor Lancelote Sobral e Souza amanhã cedo. E com jejum de doze horas!

         - E eu vou ganhar uma ressonância magnética de aniversário!

         - E eu amanheci com uma mancha verde desse tamanho na garganta!

         Com tanto remédio sem propósito, aconteceu o inevitável: minha avó ficou doente de verdade. Os filhos vieram da capital especialmente para acudi-la e, sob o olhar invejoso de meu avô, levaram a velhinha para um dos melhores hospitais do país. E mais: era problema cardíaco! Como é que sua diabetezinha chifrim poderia competir com enfermidades do mais vital dos órgãos? Três pontes de safena! Agora quem ia ter um troço era ele.

         Depois de muito sermão dos filhos, netos e agregados – os velhos quase precisaram de umas gotinhas nos ouvidos –, os dois resolveram selar um acordo de paz. Do jeito que as coisas iam, daqui a pouco estariam brigando para estabelecer o recorde de degustação de gelatina no hospital, ou pela vitória no grande campeonato de cicatrizes cirúrgicas.

         Os respectivos lenços brancos tremularam no ar, mas a empregada jura que viu os dois entornando vários copos, para ver quem conseguia beber mais leite na hora da novela.  



Escrito por Ana às 10h20
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



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