Olhos d´água


O último vôo de Jeremias

 

Jeremias acordou com as costas moídas. Não fazia nem um mês que a mãe tinha comprado um colchão novo, americano (“se agüenta americano gordo, imagina brasileiro mirrado”); então, por que aquela dor toda? O rapaz abriu os olhos, mas o lustre vermelho não estava lá em cima. Só viu o assoalho de cimento queimado, a coleção de Assanhadinhas e dois pares de olhos esbugalhados. Lá embaixo.

- Bom dia, filho! – disse a mãe – Toma uma coberta para não se resfriar aí.

- Cara, você está assim desde a hora em que a mãe acordou. Como é que você fez isso?

- Isso é o que dá viver no mundo da lua. Jéferson, larga essas revistas de sacanagem e vai chamar a Dona Nilce para dar um jeito no seu irmão. E você, Jeremias, aproveita e passa essa flanela no lustre, que está uma nojeira!

Dona Nilce trouxe suas benzeduras – jogou a arruda pro alto e foi planta pra todo lado –, mas o rapaz continuava lá. O Dr. Nestor trouxe um sossega-leão fabuloso, mas o moleque só desmaiava pra cima! Por fim, alguém pôs a mão na consciência e o Zé da Venda trouxe uns quatro sacos de cimento. “Magrinho do jeito que esse aí é, é melhor prender o rapaz no chão pra não sair voando”, argumentou, com toda a sua sabedoria de balcão. E assim foi feito: Jeremias foi amarrado aos sacos de cimento.

Depois de ficar conhecido na vila, não demorou muito para que sua fama se espalhasse no showbusiness. Sempre atrelado à cordinha e levado pela mãe tal qual aqueles balões de gás vendidos em porta de churrascaria, Jeremias foi contar sua sensacional história no Fantástico e nos programas vespertinos da TV – certa vez, dividiu o palco com uma mulher que só sabia andar para trás.

Apesar das manias da mãe com a faxina, “Jeremias das alturas”, como ficou conhecido no noticiário, até que estava gostando da situação. Tinha que tomar cuidado na hora do almoço e da janta, para não batizar ninguém com arroz ou um naco de carne, mas era uma questão de costume. E depois, podia ver de tudo de lá de cima: onde a mãe guardava o troco da feira, quem é que estava com caspa, o decotão da prima Aparecida. Sua nova condição até era bastante útil: quem mais indicado do que ele para trocar lâmpada, espantar pernilongo e tirar teia de aranha dos ângulos mais difíceis no pé direito da casa?

Numa noite quente, Jeremias dormia com as janelas abertas – agora, os pernilongos tinham que encontrar outros esconderijos – e os punhos e tornozelos atados ao chão. Mas depois de tanta andança por aí com a mãe, pra mostrar como ele flutuava bonito para a vizinha ou em rede nacional, as cordas foram soltando um fio aquilo, um fiapo ali...

Jeremias desapareceu no dia 19 de abril de 1997. As preces da mãe e da vizinhança foram inúteis. Alguns dizem que ele bateu a cabeça no pico do Morro do Jaraguá e flutuou de vez até o Céu. Outros, que ele foi parar na cobertura de alguma modelo e ex-mulher de jogador de futebol e nunca mais quis voltar. Outros ainda juram de pé junto que ele foi visto sobrevoando a Marginal Pinheiros. O corpo de bombeiros acalmou a população: era apenas o dirigível da Goodyear. 



Escrito por Ana às 16h40
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