Sidney, 10 de maio de 2005.
Tenho que te deixar.
Eu sei que você não esperava por isso, e eu não vou passar o velho discurso do “não é nada com você, o problema sou eu”, porque o negócio é com você mesmo. Não sei, esse lance de ser peludo e ao mesmo tempo ter bico, essa indecisão entre ser mamífero ou ovíparo. Se você nem sabe de que espécie é direito, imagina se vai saber quem é dentro dessa relação. (Nossa, você deve estar morrendo de vontade de usar aqueles esporões venenosos agora).
E depois, Totô, não é só essa falta de identidade que me preocupa. Eu até gosto de água, adoro dar minhas braçadinhas, mas morar dentro de um lago para sempre? Também nunca vou me esquecer do desastre gastronômico do nosso primeiro encontro à beira daquela lagoa: peixe de água doce e caranguejo eu até engulo, mas girino? Nada contra pratos exóticos, mas nada a favor também de sapos em estágio infantil de desenvolvimento.
E se eu ficasse grávida? Como é que o meu bucho expandido de mamífera poderia competir com a delicadeza dos ovos que umazinha qualquer da sua espécie poderia botar? Fora a sua mania de só sair da toca à noite. Todo mundo gosta de uma balada, mas eu é que não vou passar a madrugada esperando marido chegar em casa todo molhado e com o bico cheirando a verme.
Tudo isso só mostra exatamente o que eu quero que você enxergue também, Totô: somos diferentes demais. Espero que você encontre alguém com quem realmente se bique.
Beijos,
Dorotéia.
Escrito por Ana às 10h12
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