A gente agüenta o homem em cima, carrega o bucho cheio com um monte de moleque em roda da saia, pare, parece que tem mais sangue fora que dentro, vê o bichinho tão pequeno, tão sozinho, que vem se chegar no peito da gente, quando ele já estava lá muito antes. Dá um peito, depois outro, ele enfia o dente, mas o olho brilha de ver o moleque gordo, abrindo a boca e estendendo o bracinho e errando a mira toda vez que vem pro colo. O moleque se arrasta pela casa encardindo tudo que é roupa, tirando tudo que é panela e cadeira fora do lugar, uma zona do diabo e a gente acha lindo. E depois o moleque que anda, a perninha ainda meio torta, parece que o quarto é lá longe, e o moleque que corre e grita e aprende a chamar mãããe, e chora de madrugada com dor de dente, dor de barriga, dor de manha. E o moleque que chora de madrugada de medo. E o moleque sai pela porta da rua-vou-ver-o-que-essa-guerra-tem, mãe. E a gente chora de madrugada com dor no peito, com medo do sonho e de algum castigo de Deus.
A gente agüenta o homem que volta, o olho torto pra casa que foi dele, parece que tem mais amor fora que dentro, vê o bicho tão crescido, que não quer mais se chegar no peito da gente, mas já estava lá muito antes, e pra sempre. Dá uma face, depois a outra, ele desvia, mas o olho da gente brilha de ver o homem grande, mesmo sem abraço, sem colo. O homem arrasta tudo na casa, encardindo tudo que é herança, botando coisa nova em tudo que é lugar, uma zona do diabo e a gente acha lindo. E depois o homem que anda assim, assim, a perna fraca demais, parece que o quarto é lá longe, e o homem não corre, só grita e não esquece de chamar mãããe, e chora de madrugada com dor nas carnes, dor no sangue, dor de lembrança. E o homem que chora de madrugada de medo. E o homem que vai pela porta da alma-vou-ver-o-que-o-mundo-tem, mãe. E a gente chora de madrugada de dor no peito, com medo do sono. Castigo de Deus.