Olhos d´água


Meu bosque de sonho

 

           Uma fileira formada por três árvores sem flores e com raízes que insistem em romper o cimento da calçada pode não ser a melhor definição para um bosque encantado. Mas, para nós, aquele pedaço do quarteirão era a savana da África, o caminho para El Dorado, o “para sempre” das histórias de bruxas e princesas.

            O muro verde, já desbotado, não fazia feio como pano de fundo para o faz-de-conta. A parede era grande o bastante para guardar os mistérios de uma mata fechada, as águas geladas de mil léguas submarinas ou um céu de tempestade.  Cortinas esse teatro não tinha, e o espetáculo só terminava mesmo quando a noite insistia em se fechar.

              Nossos heróis às vezes apareciam ainda metidos em uniformes de escola e tranças nos cabelos e, para terror de seus companheiros, insistiam em sumir bem depois dos berros de alguma rainha-mãe. Também não era preciso ir longe demais para topar com os vilões mais terríveis: a velha da casa ao lado tinha sempre um balde de água fria a postos – na verdade, um grande caldeirão de azeite fervente (embora, curiosamente, nenhuma das mães zelosas das redondezas soubesse daquilo). A velha da casa da frente até fingia varrer as folhas direitinho, mas nem adiantava disfarçar: é claro que a vassoura era usada para outras propostas, digamos, mais aerodinâmicas. E um bravo cavaleiro jurava por sua donzela que já tinha visto a velha da casa da esquina soltar fogo pelas ventas pelo menos umas duas vezes.

              Depois de combater tantos perigos, os cavaleiros e princesas já estavam mais do que prontos para um banquete real. Sobre a toalha surrupiada de casa de Bourbon, e com a ajuda dos talheres e jarras de plástico emprestados de uma casa de Bragança, os nobres guerreiros festejavam as vitórias com bolachas recheadas de dragão e sanduíches de patê de ogro. As donzelas se refrescavam com sumo dos frutos da planície de Tang-Tang. Outras, é verdade, disputavam as bolachas recheadas com os heróis a safanões.

             As tardes se passavam em aventuras de capas, espadas e carruagens de rolimã. Até que, um dia, a história que no começo era contada tão devagarinho começou a voar pelas páginas. Um furacão muito poderoso invadiu nosso bosque e o “era uma vez” ficou lá para trás. O bravo guerreiro já não queria mais montar o alazão e a princesa se fechou em sua torre para sempre. O muro perdeu o verde de vez e ninguém percebeu. A noite chegou, mas não houve protestos contra o fim do espetáculo. Bruxas e dragões não assustavam mais ninguém.

           Tempos depois, o cimento finalmente venceu e as árvores foram parar em algum lixão do reino. Na verdade, não se sabe. Não havia mais ninguém por lá para contar o fim dessa história.



Escrito por Ana às 10h38
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Interrupção

 

         Os dedos do carrasco se encaixam perfeitamente e o fio bem treinado não se deixa deter pela trama de fibras: rompe a cobertura lisa e firme sem compaixão. Os vasos delicados se rompem em uma hemorragia verde e perfumada, e o sangue e alimento é a última testemunha do caule que tomba por terra. A planta chora. Mas não é o fim de tudo. Os restos dos membros mortos de hoje são promessas do viço e da vida de amanhã. Nesse brincar de ser Deus, é o homem que decide como tudo deve florescer.



Escrito por Ana às 16h51
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Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



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