Dia de Feira
Se não fosse pela Benê, uma alemazona que botava ordem na casa, Dona Dolores não seria capaz nem de encontrar os próprios óculos. Todo sábado era a mesma coisa: a empregada deixava tudo arrumado no aparador ao lado da porta da rua. Sacola, óculos de ver de perto, óculos de ver de longe, chapéu de palha para se proteger do sol. A carteira, no entanto, Benê não precisava colocar em exposição. Dona Dolores chamava o neto pelo nome do papagaio, botava açúcar no feijão e passava maionese no rosto em vez do creme Ponds (que geladinho!), mas nunca se esquecia de onde estava a carteirinha preta. Que, aliás, Benê é que não sabia onde ficava guardada.
O dinheiro ela mesma separava para as compras. Ao supermercado não fazia questão de ir – tinha medo de se perder naqueles corredores, todos iguais. Farmácia também não. Tinha horror de remédio e do cheiro de álcool da cabine de injeção. Mas feira ela insistia em fazer. Gostava do perfume adocicado do... – que fruta mesmo era aquela? –, do amarelo lustroso das... De qualquer maneira, na feira não se perdia nunca. Era muito fácil: partia da barraca de melancias, percorria todo o lado esquerdo até aqueles legumes vermelhos e redondos, como é que se diz, e depois o lado direito até as bananas. Para voltar para casa, era só fazer a curva na barraca de ferragens. Super prático.
Já foi com a listinha de frutas e hortaliças na cabeça. Para aquela semana precisaria de rúcula, cenoura, alguma poncãs bem suculentas e morangos para a sobremesa. Dito e feito: encheu a sacola com as abobrinhas, o agrião, as carambolas e as uvas e, a caminho da barraca de ferragens, percebeu que alguma coisa estava faltando. E era a barraca de ferragens!
Meu Deus, o que teria acontecido com o ferreiro? Teria sido contaminado pela tal da gripe aviária? – afinal, a barraca do frango não estava muito longe. Teria esquecido como consertar bicos de panelas de pressão e caído em depressão profunda?
Dona Dolores precisava voltar para casa. A coitada da empregada já devia estar esperando por ela. Coitada da Caetana! Já podia imaginar as manchetes dos jornais: “Saiu para comprar banana, abóbora, chuchu e berinjela e nunca mais voltou.”
Partiu decidida em direção à banca do peixe. Pessoas que comem peixe são inteligentes e poderiam ajudar. Chegou à barraca do mamão e o que é que tinha que perguntar mesmo? O feirante se compadeceu da velhinha de boca aberta, tão vazia de dentes e tão cheia de ar, e lhe tascou um pedaço de mamão. Docinho... Vagando pela feira, Dona Dolores ia pegando uma fatia de melancia aqui, um copo de garapa ali, puxou conversa com o mendigo cego aqui, chamou o menino que fazia carreto ali...
A manhã – que dia é hoje mesmo? – foi passando e, quando as barracas começaram a ser recolhidas, Dona Dolores já estava de barriga cheia e pernas cansadas. Não tinha mais bancas para visitar, legumes e verduras para ver, frutas para apalpar. No fundo da rua só sobrou uma loira parruda de uniforme, que insistia em encarar a velhinha. Os olhos verdes soltavam faíscas, mas ela não escondeu o sorriso de alívio.
- Dona Dolores! Até que enfim!
- Acácia! Sabe que eu estava mesmo pensando em você?
Escrito por Ana às 10h23
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