Café
A chaleira grita, a fumaça embaça o vitrô da cozinha e a velha receita, tão em voga entre tantas visitas, volta à cena: duas colheres de pó, uma de açúcar. Hoje sou obrigada a colocar mais uma.
Não devia esbanjar com você meu café de gourmet, embalado a vácuo. Deveria servir era um café solúvel, com alma de vidro, dissolvido em água fervida no microondas, sem música de assobio. Ou um pó bem vagabundo, coado com água de torneira e servido em copo de massa de tomate. E para você tomar aí, na soleira da porta, como cão que espera a gente raspar o prato.
A água invade o coador como se tivesse a esperança de transformar folha, viço, fruto, cor, e de que hoje só resta o pó, em alguma coisa viva de novo. Quisera eu te reduzir à poeira terrosa para, com a ajuda da água fervente, te levar de volta ao barro e moldá-lo novamente, do jeito que eu quero.
Mas agora não importa. A cada gota que escorre no bule conto também os passos que você vai dar para sair da minha vida. Te sorvi quente e num gole só, e agora você vai assim, a conta-gotas, frio. Café que esfria não se bebe. Prepara-se outro bule.
O pó se deixar abandonar no cone de papel, já sem sabor, nem serventia. A porta range. Sirvo uma xícara só.
Escrito por Ana às 13h28
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