Tic-tac
A velha borboleta prateada já não gira com tanta facilidade. Emperra a cada volta nessa tarefa sagrada há tantos anos. Todas as quartas-feiras, cada giro da corda estabelece a que horas vou viver cada hora de minha vida.
Alimento meus feitores, capatazes, um mais alto e o outro mais discreto, que passeiam pelos números com naturalidade. Meus senhores fazem pose de muito competentes e compenetrados em seu ofício circular, mas sei que conspiram: movem suas engrenagens sem vontade em meus momentos negros e giram tal qual um ventilador em alta voltagem nas melhores horas, minutos e segundos.
Priiiiii, e me levanto para fazer café, mesmo se o pó acabou, priiii e coloco o feijão no fogo, mesmo odiando feijão, priiiii e passo a camisa do marido, que deve ter fugido com aquela paraguaia, priiiii e vou tomar banho sem vontade, embora a cada toque do relógio comece a sentir odores suspeitos.
Proponho um levante contra essa ditadura das 24 horas! Quero me levantar para fazer feijão, passar a camisa no banho, tomar café paraguaio e colocar meu marido no fogo! Mas ainda não... Tudo a seu tempo.
Com meus dois capatazes aprendi que a tortura tem hora marcada. Um dia, talvez daqui a 7.200 minutos, talvez duas horas a mais, talvez um segundo a menos, a corda prateada há de emperrar para sempre. Aí sim, poderei viver ao meu compasso.
Em um minuto de generosidade, poderia até levar o despertador ao relojoeiro, mas ando meio sem tempo.
Escrito por Ana às 13h15
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