Tedusca
Eles nunca tinham visto nada igual dentro dos limites de Tedusca. Ao robustos animais tinham os adornos dos unicórnios, embora em uma disposição diferente, mas sua fortaleza era ainda maior. No entanto, pareciam não oferecer grandes perigos na lida, pois só faziam ruminar pacificamente naquela planície verde. Poderiam servir de carne de caça ou força motriz de arados e moinhos. Quando os guerreiros teduscanos se preparavam para arrebanhá-los, uma surpresa: um líquido branco emanava de uma protuberância rosada e volumosa do ventre de uma das bestas. Branco e fosco, justamente como o líquido que um dia anunciaria a vinda do grande Tudai.
O guerreiro mais prático mandou o guerreiro mais veloz ir avisar o rei e seus conselheiros, para que tomassem providências. Enquanto esperavam a resposta, descobriram com alegria que as outras bestas também traziam o líquido consigo. Não poderia haver sinal mais definitivo: Tudai estava mesmo chegando.
Os arautos trouxeram ordens e escravos com grandes tambores de prata, decorados com filigranas e fechados com um pesado cadeado. Todo o líquido milagroso, a “água da vida”, diziam, e que descobriram não ser difícil de extrair, deveria ser armazenado nos tambores e levados para o palácio.
Tedusca se cobriu de grandes pingentes de âmbar para esperar Tudai. No dia seguinte, à luz do primeiro raio de sol, como rezavam as escrituras sagradas, deveriam oferecer a água a vida a ele. Os arautos fizeram música entoar de suas cornetas de cristal azul, e o rei usou uma chave vermelha para abrir os grandes cadeados. No entanto, ao se abrirem os tambores, o glorioso líquido não estava mais lá. Restara apenas uma pasta esbranquiçada e mal-cheirosa. Tudai não vem.
Escrito por Ana às 10h07
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O eterno retorno
Alguns dizem que ela vem na forma de uma deusa de manto fluido e rosto de Sharon Stone. Outros, que arrebata corações, mentes e a caneta sobre o papel com a sensualidade de uma garota do Fantástico. Nada contra tropeçar em alguma delas pelo caminho, mas a verdade é que essa senhora resolveu me abandonar.
Antes me fazia visitas nos horários mais impróprios e eu me levantava durante a noite com o ímpeto de quem não visitou a cozinha de um restaurante chinês de aromas duvidosos. Bastava uma palavra, uma música, uma lembrança, bastava o viradinho de banana da minha mãe no fim de tarde e lá estava ela, falando pelos cotovelos; vento sussurrando as aventuras e joelhos ralados da infância, a despedida do último café sem açúcar, mulheres de cabelos e almas coloridas e como, em várias ocasiões, uma maçã pode adquirir ares de bicho selvagem.
Sinto falta do calor dessas histórias ao pé do ouvido. Encosto a ponta da esferográfica sobre a pauta, mas já não ouço a sinfonia do riscado que evoca o vôo de pipas de seda e de sonho, a ressurreição de amigos reais e imaginários, o som das estrelas na mais perfeita escuridão. Bolas, não sai nem um poeminha que rime coração com emoção...
É por isso que venho aqui, a público, e me curvo diante de páginas impressas e manuscritas. Volta, inspiração!
Escrito por Ana às 13h55
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