Capitão
Capitão, como é conhecido simplesmente pelo pessoal do trabalho, está mais para coveiro que para funcionário de um parque de diversões. O bigode espesso e grisalho recobre somente os lábios, mas parece também ocultar seus olhos: talvez acesos de amor ou fúria um dia, hoje permanecem velados, sem novidades, como a boca que só faz resmungar.
O cabelo de Capitão é um segredo mais bem guardado que a verdade por trás dos sustos do Trem Fantasma. Chapéu de peão gaúcho enterrado na cabeça, mil apostas já foram feitas e perdidas para saber se era careca ou não. A vestimenta não variava muito: as calças puídas, o jaleco com o logotipo do parque e botas de macho.
Capitão é o responsável pelo funcionamento da montanha-russa. Só aceitou o emprego porque não podia mais com a lida no campo, não havia mais pelejas para lutar, e esse foi o único trabalho oferecido a um velho bronco. Odiava parques de diversão, assim como o cheiro de pipoca amanteigada, o pôr do sol do alto da roda gigante ou qualquer coisa que o tentasse a não acreditar que “a vida é um trem sério”. Não havia tempo, nem propósito para despropósitos como aquele.
Por isso, quando as crianças finalmente conseguiam entrar no carrinho depois de horas sob o sol na fila, e chegavam ao alto da primeira subida na expectativa de quase colocar os bofes para fora, Capitão puxava a alavanca. Nada de descida. O ar até ficava pesado de tantos gritos suspensos. Vinha o pessoal da manutenção e voltavam a fila e a paciência. Os grandes bigodes até ensaiavam um movimento, mas Capitão permanecia impassível, homem sério fazendo trabalho sério. Faca na bota.
À noite, quando todo aquele povo que não tinha o que fazer finalmente ia embora, chegava a hora de Capitão. Esgueirava-se até o carrossel e, ao sabor do vento e das voltas, cavalgava seu alazão pelos pampas.
As cidades ocultas*
Uma vez descoberto seu truque, Capitão não podia mais permanecer no parque de diversões. Só lhe restava a estrada e, com os arreios sobre os ombros e sem montaria, vagou até os limites de uma cidade. Raíssa o recebeu com um caminho tomado por espinhos, que lhe fizeram o favor de romper o couro já carcomido de suas botas e ferirem-lhe os pés. Mancando como podia, os arreios a lhe pesarem o corpo, procurou abrigo em uma estalagem.
O balcão estava vazio, as garrafas nas prateleiras, empoeiradas, e crianças esqueléticas o cercaram como se Capitão fosse o pedaço de carne ou coisa que o valha mais apetitoso das redondezas. Do outro lado do balcão, um homem igualmente cadavérico lhe estendia a mão implorando por ajuda. Os bigodes grisalhos permaneceram imóveis sobre a boca, mas ameaçaram descobrir um brilho lacrimoso nos olhos. Por fim, os lábios ganharam a peleja e Capitão se pôs novamente em seu caminho.
Quase teve que apelar para a lâmina que trazia no saco de estopa que fazia as vezes de valise. Dois jovens guerreavam com paus e pedras no meio da rua e vociferavam palavrões, enquanto uma garota de beleza esquecida ameaçava seguir o caminho dos espinheiros e nunca mais voltar.
Capitão conseguiu se esquivar das armas primitivas dos rapazes. De seu pé escorria um sangue jovem, caudaloso e brilhante, e já não podia mais prosseguir. Antes, os lábios só se faziam abrir para amaldiçoar as diversões ridículas, mas agora se calavam diante da tristeza de Raíssa. Tirou o chapéu e, o que seria um grande espanto para seus ex-colegas de trabalho, sua cabeleira ainda era vasta e negra. Ao passar as mãos entre os cabelos suados, percebeu que trazia um único fio branco na cabeça. Os bigodes deixaram ver os lábios finalmente abertos em espanto: o fio parecia não ter fim!
Resolveu ver onde o fio ia dar. Seguiu o náilon de sua cabeça, que o levou para longe dos subúrbios de Raíssa. Muitas léguas depois, Capitão encontrou a outra ponta: o fio estava atado a um belo cavalo de oficial. Como ninguém estava olhando mesmo, os bigodes deixaram ver um esboço de sorriso. Capitão tirou os arreios dos ombros e aprontou o animal. O bicho parecia conhecer as coxilhas da cidade. Raíssa não era um lugar tão ruim assim.
*Baseado em exercício sobre a obra "As cidades invisíveis", de Ítalo Calvino.
Escrito por Ana às 10h38
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