Eterna surpresa
Hoje deve ser alguma ocasião importante. Nunca a vi nesse vestido vermelho estampado. As rosas se misturam com as flores miúdas da cortina e minha visão hoje amanhece emoldurada por um jardim.
Quando a vi pela primeira vez, devia ser dia de limpeza. As flores miúdas se afastaram para revelar cozinha e braços muito alvos, os cabelos louros presos por um rabo de cavalo. Ao pressentir um olhar, me refugiei em minha trincheira de persianas e violetas.
Sei a hora em que ela prepara o café. Não posso me abandonar ao desleixo da barba por fazer e do velho pijama listrado. Dedico a ela uma opereta por dia, mas as manchas e odores de jornais e charutos, assim como a melancolia dos clássicos, ficam reservados para a sala, ao entardecer.
Às três da tarde preparo uma limonada. Doce. Assim me poupo da tentação de cruzar a rua para pedir uma xícara de açúcar. Mas sempre sirvo um copo a mais.
Escrito por Ana às 19h25
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