Dor de cabeça
A mão trêmula tomou o comprimido. A outra, o copo d’água. Mira a cápsula com atenção. Qual será a metamorfose que transformará o casulo insuspeito na borboleta de cores suaves que levará em suas asas e para longe o espetar de agulhas e as pancadas de bate-estaca? Água e comprimido, pão e vinho, carne e sangue nessa transfiguração quase religiosa que, por fim, salva a massa cinzenta de que a espécie humana tanto de orgulha –– e, assim, a nós mesmos.
Nem o exército mutilador de microorganismos do antibiótico, nem a proteção blindada do antiinflamatório pode se comparar à redenção pura e simples do analgésico. Basta adicionar água.
Escrito por Ana às 16h56
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