O primeiro – e último
Conta a minha avó que meu saudoso bisavô, mineiro de bem, um belo dia não suportou mais olhar para a sujeira de um mendigo que vagava pelas ruas da cidade. Bêbado, maltrapilho, cambaleante, vários dentes a dever, o pobre não podia competir com a velocidade do boato que se espalhou: dizem que jamais havia tomado banho. Após deixar a hidromassagem do útero materno, nem mesmo uma gota de água benta tocara seu corpo. Então meu bisavô levou a cabo o plano que a cidade inteira tinha ao cruzar com o coitado na rua: seqüestrou o indigente, despiu-o em todas as suas sujas vergonhas na frente de minha avó e suas irmãs e, tina d’água e sabão de coco a postos, esfregou o homem com uma vontade de anteontem. Meia hora depois, ele estava branco, limpo, rescendendo a creolina – e morto.
Conta a minha avó que, em anos de andanças e pingaiadas, o mendigo havia desenvolvido uma crosta externa e interna impenetrável, resistente qual couraça de um vaso de guerra. Até hoje não se sabe qual reação química ancestral se catalisou por ali. A água era doce, mas o casco não resistiu. O navio foi ao fundo. E, no dia seguinte, para a vala de indigentes.
Conta a minha avó que não se deve desmentir os mais velhos, mas eu acho que a causa mortis não foi bem assim. Nu e sem reservas diante de moças tão puras e bem faladas, imerso na água de cisterna aquecida em fogão à lenha e esfregado por um homem de coração tão puro quanto aquele sabão, pensou: “Como é que eu pude passar a vida inteira sem isso aqui?”. O mendigo morreu foi de arrependimento.
Escrito por Ana às 11h11
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