Olhos d´água


O primeiro – e último

 

Conta a minha avó que meu saudoso bisavô, mineiro de bem, um belo dia não suportou mais olhar para a sujeira de um mendigo que vagava pelas ruas da cidade. Bêbado, maltrapilho, cambaleante, vários dentes a dever, o pobre não podia competir com a velocidade do boato que se espalhou: dizem que jamais havia tomado banho. Após deixar a hidromassagem do útero materno, nem mesmo uma gota de água benta tocara seu corpo. Então meu bisavô levou a cabo o plano que a cidade inteira tinha ao cruzar com o coitado na rua: seqüestrou o indigente, despiu-o em todas as suas sujas vergonhas na frente de minha avó e suas irmãs e, tina d’água e sabão de coco a postos, esfregou o homem com uma vontade de anteontem. Meia hora depois, ele estava branco, limpo, rescendendo a creolina – e morto.

Conta a minha avó que, em anos de andanças e pingaiadas, o mendigo havia desenvolvido uma crosta externa e interna impenetrável, resistente qual couraça de um vaso de guerra. Até hoje não se sabe qual reação química ancestral se catalisou por ali. A água era doce, mas o casco não resistiu. O navio foi ao fundo. E, no dia seguinte, para a vala de indigentes.

Conta a minha avó que não se deve desmentir os mais velhos, mas eu acho que a causa mortis não foi bem assim. Nu e sem reservas diante de moças tão puras e bem faladas, imerso na água de cisterna aquecida em fogão à lenha e esfregado por um homem de coração tão puro quanto aquele sabão, pensou: “Como é que eu pude passar a vida inteira sem isso aqui?”. O mendigo morreu foi de arrependimento.  



Escrito por Ana às 11h11
[ ] [ envie esta mensagem ]


Dor de cabeça

 

A mão trêmula tomou o comprimido. A outra, o copo d’água. Mira a cápsula com atenção. Qual será a metamorfose que transformará o casulo insuspeito na borboleta de cores suaves que levará em suas asas e para longe o espetar de agulhas e as pancadas de bate-estaca? Água e comprimido, pão e vinho, carne e sangue nessa transfiguração quase religiosa que, por fim, salva a massa cinzenta de que a espécie humana tanto de orgulha –– e, assim, a nós mesmos.

Nem o exército mutilador de microorganismos do antibiótico, nem a proteção blindada do antiinflamatório pode se comparar à redenção pura e simples do analgésico. Basta adicionar água. 



Escrito por Ana às 16h56
[ ] [ envie esta mensagem ]


Vôo

O mar é alado

A asa molhada

Invade a margem

Abraça a nave

Encara o espaço



Escrito por Ana às 14h31
[ ] [ envie esta mensagem ]


Providência

 

Espora no potro, espeto no apeio

Espreito o passado no poente

Aparente paz, transparente peso

Espesso é o pó no alpendre do pensamento

Experimento paisagens, provo surpresas

Aspereza de ponte, de poeira e de pedra

Espera apagada, sem pousada nem porto

Esporro no potro, espora no peito.



Escrito por Ana às 10h36
[ ] [ envie esta mensagem ]


The birds

 

As aves vêm como um raio

Um papagaio!

Caio e me esquivo de asas e garras

Se agarra ao poste a moça bicada

Estirada na rua é banquete entre as penas

As pernas, prato do sanhaço

Os braços, aperitivos de coruja

Suja de sangue, maritaca lambe os dentes

E nesse banquete insano

O tucano come o tutano

Plano frustrado é assistir a essa fita

Em que calopsita é perigo de morte

Nesse mote

De Hitchcock.



Escrito por Ana às 18h45
[ ] [ envie esta mensagem ]


Inventário de tarde de domingo

 

Seis pratos sobre a pia. Cinco vazios, um ainda com lasanha à bolonhesa. Um filho que não gosta de lasanha à bolonhesa. Zero filhos para tirar o resto da mesa. Uma mãe de mãos ásperas, um pai de dedos ágeis. Um controle remoto. Zero sobremesas. Quatro reclamações. Um filho que não gosta de sobremesa. Dez dedos indicadores, um controle remoto. Cinqüenta programas simultâneos na TV a cabo. Cinco opiniões, dois safanões, um grito vindo da cozinha. Quatro silêncios e uma bateção de porta. Um filme, quatro sorrisos. Um choro abafado no banheiro. Uma palavra doce de mãe. Seis pratos lavados, doze talheres guardados, uma caçarola areada. Duas mãos em repouso. Cinco lugares ocupados. Uma poltrona vaga. Uma birrinha no canto da sala. Um colo. Duas lágrimas já enxutas. Um ressonar, dois ressonares, três... Cinco roncos. Dois olhos bem abertos. Um bico desse tamanho.



Escrito por Ana às 07h52
[ ] [ envie esta mensagem ]


Eterna surpresa

 

Hoje deve ser alguma ocasião importante. Nunca a vi nesse vestido vermelho estampado. As rosas se misturam com as flores miúdas da cortina e minha visão hoje amanhece emoldurada por um jardim.

Quando a vi pela primeira vez, devia ser dia de limpeza. As flores miúdas se afastaram para revelar cozinha e braços muito alvos, os cabelos louros presos por um rabo de cavalo. Ao pressentir um olhar, me refugiei em minha trincheira de persianas e violetas.

Sei a hora em que ela prepara o café. Não posso me abandonar ao desleixo da barba por fazer e do velho pijama listrado. Dedico a ela uma opereta por dia, mas as manchas e odores de jornais e charutos, assim como a melancolia dos clássicos, ficam reservados para a sala, ao entardecer.

Às três da tarde preparo uma limonada. Doce. Assim me poupo da tentação de cruzar a rua para pedir uma xícara de açúcar. Mas sempre sirvo um copo a mais.



Escrito por Ana às 19h25
[ ] [ envie esta mensagem ]


Capitão

 

Capitão, como é conhecido simplesmente pelo pessoal do trabalho, está mais para coveiro que para funcionário de um parque de diversões. O bigode espesso e grisalho recobre somente os lábios, mas parece também ocultar seus olhos: talvez acesos de amor ou fúria um dia, hoje permanecem velados, sem novidades, como a boca que só faz resmungar.

O cabelo de Capitão é um segredo mais bem guardado que a verdade por trás dos sustos do Trem Fantasma. Chapéu de peão gaúcho enterrado na cabeça, mil apostas já foram feitas e perdidas para saber se era careca ou não. A vestimenta não variava muito: as calças puídas, o jaleco com o logotipo do parque e botas de macho.

Capitão é o responsável pelo funcionamento da montanha-russa. Só aceitou o emprego porque não podia mais com a lida no campo, não havia mais pelejas para lutar, e esse foi o único trabalho oferecido a um velho bronco. Odiava parques de diversão, assim como o cheiro de pipoca amanteigada, o pôr do sol do alto da roda gigante ou qualquer coisa que o tentasse a não acreditar que “a vida é um trem sério”. Não havia tempo, nem propósito para despropósitos como aquele.

            Por isso, quando as crianças finalmente conseguiam entrar no carrinho depois de horas sob o sol na fila, e chegavam ao alto da primeira subida na expectativa de quase colocar os bofes para fora, Capitão puxava a alavanca. Nada de descida. O ar até ficava pesado de tantos gritos suspensos. Vinha o pessoal da manutenção e voltavam a fila e a paciência. Os grandes bigodes até ensaiavam um movimento, mas Capitão permanecia impassível, homem sério fazendo trabalho sério. Faca na bota.

            À noite, quando todo aquele povo que não tinha o que fazer finalmente ia embora, chegava a hora de Capitão. Esgueirava-se até o carrossel e, ao sabor do vento e das voltas, cavalgava seu alazão pelos pampas.

 

As cidades ocultas*

 

            Uma vez descoberto seu truque, Capitão não podia mais permanecer no parque de diversões. Só lhe restava a estrada e, com os arreios sobre os ombros e sem montaria, vagou até os limites de uma cidade. Raíssa o recebeu com um caminho tomado por espinhos, que lhe fizeram o favor de romper o couro já carcomido de suas botas e ferirem-lhe os pés. Mancando como podia, os arreios a lhe pesarem o corpo, procurou abrigo em uma estalagem.

            O balcão estava vazio, as garrafas nas prateleiras, empoeiradas, e crianças esqueléticas o cercaram como se Capitão fosse o pedaço de carne ou coisa que o valha mais apetitoso das redondezas. Do outro lado do balcão, um homem igualmente cadavérico lhe estendia a mão implorando por ajuda. Os bigodes grisalhos permaneceram imóveis sobre a boca, mas ameaçaram descobrir um brilho lacrimoso nos olhos. Por fim, os lábios ganharam a peleja e Capitão se pôs novamente em seu caminho.

            Quase teve que apelar para a lâmina que trazia no saco de estopa que fazia as vezes de valise. Dois jovens guerreavam com paus e pedras no meio da rua e vociferavam palavrões, enquanto uma garota de beleza esquecida ameaçava seguir o caminho dos espinheiros e nunca mais voltar.

            Capitão conseguiu se esquivar das armas primitivas dos rapazes. De seu pé escorria um sangue jovem, caudaloso e brilhante, e já não podia mais prosseguir. Antes, os lábios só se faziam abrir para amaldiçoar as diversões ridículas, mas agora se calavam diante da tristeza de Raíssa. Tirou o chapéu e, o que seria um grande espanto para seus ex-colegas de trabalho, sua cabeleira ainda era vasta e negra. Ao passar as mãos entre os cabelos suados, percebeu que trazia um único fio branco na cabeça. Os bigodes deixaram ver os lábios finalmente abertos em espanto: o fio parecia não ter fim!

            Resolveu ver onde o fio ia dar. Seguiu o náilon de sua cabeça, que o levou para longe dos subúrbios de Raíssa. Muitas léguas depois, Capitão encontrou a outra ponta: o fio estava atado a um belo cavalo de oficial. Como ninguém estava olhando mesmo, os bigodes deixaram ver um esboço de sorriso. Capitão tirou os arreios dos ombros e aprontou o animal. O bicho parecia conhecer as coxilhas da cidade. Raíssa não era um lugar tão ruim assim.

 

*Baseado em exercício sobre a obra "As cidades invisíveis", de Ítalo Calvino.



Escrito por Ana às 10h38
[ ] [ envie esta mensagem ]


Tedusca

 

            Eles nunca tinham visto nada igual dentro dos limites de Tedusca. Ao robustos animais tinham os adornos dos unicórnios, embora em uma disposição diferente, mas sua fortaleza era ainda maior. No entanto, pareciam não oferecer grandes perigos na lida, pois só faziam ruminar pacificamente naquela planície verde. Poderiam servir de carne de caça ou força motriz de arados e moinhos. Quando os guerreiros teduscanos se preparavam para arrebanhá-los, uma surpresa: um líquido branco emanava de uma protuberância rosada e volumosa do ventre de uma das bestas. Branco e fosco, justamente como o líquido que um dia anunciaria a vinda do grande Tudai.

            O guerreiro mais prático mandou o guerreiro mais veloz ir avisar o rei e seus conselheiros, para que tomassem providências. Enquanto esperavam a resposta, descobriram com alegria que as outras bestas também traziam o líquido consigo. Não poderia haver sinal mais definitivo: Tudai estava mesmo chegando.

            Os arautos trouxeram ordens e escravos com grandes tambores de prata, decorados com filigranas e fechados com um pesado cadeado. Todo o líquido milagroso, a “água da vida”, diziam, e que descobriram não ser difícil de extrair, deveria ser armazenado nos tambores e levados para o palácio.

            Tedusca se cobriu de grandes pingentes de âmbar para esperar Tudai. No dia seguinte, à luz do primeiro raio de sol, como rezavam as escrituras sagradas, deveriam oferecer a água a vida a ele. Os arautos fizeram música entoar de suas cornetas de cristal azul, e o rei usou uma chave vermelha para abrir os grandes cadeados. No entanto, ao se abrirem os tambores, o glorioso líquido não estava mais lá. Restara apenas uma pasta esbranquiçada e mal-cheirosa. Tudai não vem.



Escrito por Ana às 10h07
[ ] [ envie esta mensagem ]


            O eterno retorno

 

                Alguns dizem que ela vem na forma de uma deusa de manto fluido e rosto de Sharon Stone. Outros, que arrebata corações, mentes e a caneta sobre o papel com a sensualidade de uma garota do Fantástico. Nada contra tropeçar em alguma delas pelo caminho, mas a verdade é que essa senhora resolveu me abandonar.

            Antes me fazia visitas nos horários mais impróprios e eu me levantava durante a noite com o ímpeto de quem não visitou a cozinha de um restaurante chinês de aromas duvidosos. Bastava uma palavra, uma música, uma lembrança, bastava o viradinho de banana da minha mãe no fim de tarde e lá estava ela, falando pelos cotovelos; vento sussurrando as aventuras e joelhos ralados da infância, a despedida do último café sem açúcar, mulheres de cabelos e almas coloridas e como, em várias ocasiões, uma maçã pode adquirir ares de bicho selvagem.

            Sinto falta do calor dessas histórias ao pé do ouvido. Encosto a ponta da esferográfica sobre a pauta, mas já não ouço a sinfonia do riscado que evoca o vôo de pipas de seda e de sonho, a ressurreição de amigos reais e imaginários, o som das estrelas na mais perfeita escuridão. Bolas, não sai nem um poeminha que rime coração com emoção...

            É por isso que venho aqui, a público, e me curvo diante de páginas impressas e manuscritas. Volta, inspiração!



Escrito por Ana às 13h55
[ ] [ envie esta mensagem ]


O pedido

 

            Era artrópode, mas o movimento lhe rendeu certo sacrifício. Finalmente conseguiu flexionar o terceiro e último par de pernas sobre a pedra. Tinha encontrado a página ao anoitecer; o crepúsculo era mais dado a milagres.

            Ajoelhado, se pôs diante das poucas palavras que estavam a salvo do barro: assim na Terra como no céu. Era acalanto para seu fardo eterno, a carapaça rígida e sisuda que lhe pesava sobre os ombros. Ah, se pudesse ser fluido como o vento e provar a delícia de passar incólume por entre as flores!

            Então, o besouro pediu a Deus que o transformasse em uma borboleta.



Escrito por Ana às 11h12
[ ] [ envie esta mensagem ]


Palavra-chave

 

            A chave não era pesada, nem feita de ouro, nem estava oculta em algum tesouro perdido. Somente algo tão comum e ordinário como é a palavra poderia libertá-lo de sua prisão de vidro.

            O feitio dessa palavra pouco importava: poderia ser breve ou uma locomotiva de sílabas, ou de um tamanho qualquer. Também não exigia nenhum idioma específico, pois a liberdade rompe todas as barreiras semânticas. Poderia ser proferida no volume da ressaca na praia ou dos sussurros dos conventos, em tons agudos ou graves como o semblante das notícias ruins. Nada disso fazia diferença.

            O silêncio persistia em tomar o lugar da palavra-chave porque ela era cara demais. Implicava o desafio de derrotar o orgulho e o medo, e se deixar levar na ventania da vontade. A palavra era um desejo. E o gênio continuava preso na garrafa.



Escrito por Ana às 15h53
[ ] [ envie esta mensagem ]


Tic-tac

 

A velha borboleta prateada já não gira com tanta facilidade. Emperra a cada volta nessa tarefa sagrada há tantos anos. Todas as quartas-feiras, cada giro da corda estabelece a que horas vou viver cada hora de minha vida.

Alimento meus feitores, capatazes, um mais alto e o outro mais discreto, que passeiam pelos números com naturalidade. Meus senhores fazem pose de muito competentes e compenetrados em seu ofício circular, mas sei que conspiram: movem suas engrenagens sem vontade em meus momentos negros e giram tal qual um ventilador em alta voltagem nas melhores horas, minutos e segundos.

Priiiiii, e me levanto para fazer café, mesmo se o pó acabou, priiii e coloco o feijão no fogo, mesmo odiando feijão, priiiii e passo a camisa do marido, que deve ter fugido com aquela paraguaia, priiiii e vou tomar banho sem vontade, embora a cada toque do relógio comece a sentir odores suspeitos.

Proponho um levante contra essa ditadura das 24 horas! Quero me levantar para fazer feijão, passar a camisa no banho, tomar café paraguaio e colocar meu marido no fogo! Mas ainda não... Tudo a seu tempo.

Com meus dois capatazes aprendi que a tortura tem hora marcada. Um dia, talvez daqui a 7.200 minutos, talvez duas horas a mais, talvez um segundo a menos, a corda prateada há de emperrar para sempre. Aí sim, poderei viver ao meu compasso.

Em um minuto de generosidade, poderia até levar o despertador ao relojoeiro, mas ando meio sem tempo.



Escrito por Ana às 13h15
[ ] [ envie esta mensagem ]


Café

 

A chaleira grita, a fumaça embaça o vitrô da cozinha e a velha receita, tão em voga entre tantas visitas, volta à cena: duas colheres de pó, uma de açúcar. Hoje sou obrigada a colocar mais uma.

Não devia esbanjar com você meu café de gourmet, embalado a vácuo. Deveria servir era um café solúvel, com alma de vidro, dissolvido em água fervida no microondas, sem música de assobio. Ou um pó bem vagabundo, coado com água de torneira e servido em copo de massa de tomate. E para você tomar aí, na soleira da porta, como cão que espera a gente raspar o prato.

A água invade o coador como se tivesse a esperança de transformar folha, viço, fruto, cor, e de que hoje só resta o pó, em alguma coisa viva de novo. Quisera eu te reduzir à poeira terrosa para, com a ajuda da água fervente, te levar de volta ao barro e moldá-lo novamente, do jeito que eu quero.

Mas agora não importa. A cada gota que escorre no bule conto também os passos que você vai dar para sair da minha vida. Te sorvi quente e num gole só, e agora você vai assim, a conta-gotas, frio. Café que esfria não se bebe. Prepara-se outro bule.

O pó se deixar abandonar no cone de papel, já sem sabor, nem serventia. A porta range. Sirvo uma xícara só.



Escrito por Ana às 13h28
[ ] [ envie esta mensagem ]


Dia de Feira

 

Se não fosse pela Benê, uma alemazona que botava ordem na casa, Dona Dolores não seria capaz nem de encontrar os próprios óculos. Todo sábado era a mesma coisa: a empregada deixava tudo arrumado no aparador ao lado da porta da rua. Sacola, óculos de ver de perto, óculos de ver de longe, chapéu de palha para se proteger do sol. A carteira, no entanto, Benê não precisava colocar em exposição. Dona Dolores chamava o neto pelo nome do papagaio, botava açúcar no feijão e passava maionese no rosto em vez do creme Ponds (que geladinho!), mas nunca se esquecia de onde estava a carteirinha preta. Que, aliás, Benê é que não sabia onde ficava guardada.

O dinheiro ela mesma separava para as compras. Ao supermercado não fazia questão de ir – tinha medo de se perder naqueles corredores, todos iguais. Farmácia também não. Tinha horror de remédio e do cheiro de álcool da cabine de injeção. Mas feira ela insistia em fazer. Gostava do perfume adocicado do... – que fruta mesmo era aquela? –, do amarelo lustroso das... De qualquer maneira, na feira não se perdia nunca. Era muito fácil: partia da barraca de melancias, percorria todo o lado esquerdo até aqueles legumes vermelhos e redondos, como é que se diz, e depois o lado direito até as bananas. Para voltar para casa, era só fazer a curva na barraca de ferragens. Super prático.

Já foi com a listinha de frutas e hortaliças na cabeça. Para aquela semana precisaria de rúcula, cenoura, alguma poncãs bem suculentas e morangos para a sobremesa. Dito e feito: encheu a sacola com as abobrinhas, o agrião, as carambolas e as uvas e, a caminho da barraca de ferragens, percebeu que alguma coisa estava faltando. E era a barraca de ferragens!

Meu Deus, o que teria acontecido com o ferreiro? Teria sido contaminado pela tal da gripe aviária? – afinal, a barraca do frango não estava muito longe. Teria esquecido como consertar bicos de panelas de pressão e caído em depressão profunda?

Dona Dolores precisava voltar para casa. A coitada da empregada já devia estar esperando por ela. Coitada da Caetana! Já podia imaginar as manchetes dos jornais: “Saiu para comprar banana, abóbora, chuchu e berinjela e nunca mais voltou.”

Partiu decidida em direção à banca do peixe. Pessoas que comem peixe são inteligentes e poderiam ajudar. Chegou à barraca do mamão e o que é que tinha que perguntar mesmo? O feirante se compadeceu da velhinha de boca aberta, tão vazia de dentes e tão cheia de ar, e lhe tascou um pedaço de mamão. Docinho... Vagando pela feira, Dona Dolores ia pegando uma fatia de melancia aqui, um copo de garapa ali, puxou conversa com o mendigo cego aqui, chamou o menino que fazia carreto ali...

A manhã – que dia é hoje mesmo? – foi passando e, quando as barracas começaram a ser recolhidas, Dona Dolores já estava de barriga cheia e pernas cansadas. Não tinha mais bancas para visitar, legumes e verduras para ver, frutas para apalpar. No fundo da rua só sobrou uma loira parruda de uniforme, que insistia em encarar a velhinha. Os olhos verdes soltavam faíscas, mas ela não escondeu o sorriso de alívio.

- Dona Dolores! Até que enfim!

- Acácia! Sabe que eu estava mesmo pensando em você?



Escrito por Ana às 10h23
[ ] [ envie esta mensagem ]

 
Olhos d´água é a minha fazenda, é pra onde vou quando penso. Tem cavalo de toda cor e tamanho, cada um com nome de um vento. Tem Minuano, Bonança e Furacão, mas eu gosto mesmo é de Ventania.



Dias na Fazenda

02/12/2007 a 08/12/2007
25/11/2007 a 01/12/2007
07/10/2007 a 13/10/2007
30/09/2007 a 06/10/2007
23/09/2007 a 29/09/2007
17/06/2007 a 23/06/2007
13/08/2006 a 19/08/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
11/12/2005 a 17/12/2005
16/10/2005 a 22/10/2005
18/09/2005 a 24/09/2005
11/09/2005 a 17/09/2005
07/08/2005 a 13/08/2005
29/05/2005 a 04/06/2005
15/05/2005 a 21/05/2005
08/05/2005 a 14/05/2005
24/04/2005 a 30/04/2005
10/04/2005 a 16/04/2005
20/03/2005 a 26/03/2005
13/03/2005 a 19/03/2005
06/03/2005 a 12/03/2005
27/02/2005 a 05/03/2005
20/02/2005 a 26/02/2005
30/01/2005 a 05/02/2005
28/11/2004 a 04/12/2004
21/11/2004 a 27/11/2004
31/10/2004 a 06/11/2004
24/10/2004 a 30/10/2004
17/10/2004 a 23/10/2004
19/09/2004 a 25/09/2004
12/09/2004 a 18/09/2004
29/08/2004 a 04/09/2004
08/08/2004 a 14/08/2004
01/08/2004 a 07/08/2004
27/06/2004 a 03/07/2004
20/06/2004 a 26/06/2004
06/06/2004 a 12/06/2004
30/05/2004 a 05/06/2004
23/05/2004 a 29/05/2004
16/05/2004 a 22/05/2004
09/05/2004 a 15/05/2004
25/04/2004 a 01/05/2004
11/04/2004 a 17/04/2004
21/03/2004 a 27/03/2004
07/03/2004 a 13/03/2004
15/02/2004 a 21/02/2004




Abra a porteira para visitar também:
 Clube da Esquina Dois
 Olhos d'Água
 Frase e Efeito Estúdio Editorial
 Blog da Ritoca
 Chuva na Montanha, da Nilce
 Café com Prosa
 Thin Music
 Arte Vital, de Antônio Siqueira
 Retrato em Branco e Preto
 Silêncio Poesias, da Gisele
 Sex and the City, do Marcelo
 Pequenas coisas, infimidades e outras maiores
 Dobras da Leitura
 Baby in Manhattan, do Baby Luca
 Atire no dramaturgo
 Gato de máscara
 Casa Lygia Bojunga
 A Casa de Rubem Alves
 Gardenal
 Leitura invertida
 O Caracol do Ouvido